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Os ‘enxames’ digitais criaram os novos bairros de crime e imundice

hacker

Da FOLHA

Por JOÃO PEREIRA COUTINHO

Todos os dias, mais um horror no mundo digital. Li recentemente que uma adolescente de 12 anos, alegada vítima de abusos sexuais pela família, cometeu suicídio ao vivo. O filme de 45 minutos tornou-se “viral”, chegou ao YouTube e ao Facebook. A notícia não dizia se houve “likes”, comentários ou outras reações animadas. Imagino que sim, embora prefira não imaginar.

E quando não são suicídios, são violações, espancamentos, talvez homicídios. A polícia, indignada mas impotente perante o horror, diz que pode fazer pouco, ou nada: estas pornografias propagam-se e multiplicam-se com a velocidade da luz.

Eis o mundo que o filósofo Byung-Chul Han relata no último ensaio que li dele, “No Enxame: Reflexões sobre o Digital” (edição portuguesa pela Relógio D’Água). Não me canso de recomendar os livros breves, densos, luminosos de Han. Ele é dos raros, raríssimos pensadores contemporâneos que pensam realmente o mundo contemporâneo.

No livro, Han analisa o conceito que dá título à obra –”enxame”– para descrever as hordas de indivíduos que, graças à facilidade da comunicação digital, são como pragas de insetos que insultam ou chafurdam no lixo cibernauta com uma violência inaudita. Para Han, isso explica-se por dois fatores que são anteriores, e talvez até superiores, à própria natureza da tecnologia.

O primeiro fator está na eliminação do tempo de espera que definia as nossas comunicações. Se algo me indignava no mundo “exterior”, eu poderia escrever a um editor de jornal. Esse gesto implicava tempo: tempo para pensar; tempo para escrever; tempo para enviar. A distância, que muitos vêem como insuportavelmente antiquada ou elitista, era na verdade um compasso de espera para que eu não fosse escravo das minhas paixões.

Hoje, o “enxame” é composto por escravos: quem insulta na internet; quem consome e partilha vídeos da intimidade alheia (e até da morte alheia), não é um ser racional no sentido elevado do termo. É como as bestas que agem por instinto e que são incapazes de pensar para lá do instinto.

Mas existe um segundo fator que o mundo digital permeia: a eliminação de agentes mediadores. Apesar de Han não o escrever explicitamente, escrevo eu: só existe civilização porque existe mediação.

As massas não são juízes em causa própria –porque existem juízes capazes de administrar a justiça de forma impessoal. As massas não governam diretamente –porque existem representantes que governam mandatos pelo povo mas não submetidos aos caprichos do povo. As massas não produzem “notícias” baseadas em rumores ou fantasias –porque existem profissionais que pesquisam e verificam antes de publicar.

A existência de agentes mediadores, desde que dotados de conhecimento e experiência, é o último filtro entre as paixões incontroladas das massas e a possibilidade de uma sociedade suportável e decente.

O “enxame” não autoriza essa barreira porque acredita que qualquer filtro é, por definição, opressivo, elitista e até antidemocrático. A emergência do populismo político, por exemplo, não se explica apenas com crises econômicas, elites corruptas (ou alienadas dos interesses da população).

O populismo é também a expressão de um tempo em que a “vontade geral” quer ser a “vontade executiva” –agora, já, imediatamente! O líder populista não é o líder de um povo; é um comissário do povo e, muitas vezes, da “tirania da maioria”.

Longe de mim vestir o traje de ludita moderno e marchar contra a internet ou as redes sociais. Pelo contrário: a internet também é uma arena de liberdade e vigilância onde a “tirania da minoria” –no caso, a minoria que nos governa– pode e deve ser criticada.

De igual forma, a censura, qualquer censura, é repulsiva e inútil. Não é possível parar o vento com as palmas das mãos.

O “enxame” veio para ficar. E a única forma de coexistir com ele –e coexistir é diferente de conviver– será muito semelhante à forma como já coexistimos com antros de crime e imundice nas nossas cidades.

Sabemos que eles existem. Conhecemos o nome dos bairros. Mas evitamos frequentá-los por razões de sobrevivência e higiene pessoal.

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