Só milagre trará paz entre torcidas

organizadas

Da FOLHA

Por MARILIZ PEREIRA JORGE

O encontro histórico protagonizado pelas organizadas do Corinthians (Gaviões da Fiel), São Paulo (Independente), Palmeiras (Mancha Alviverde) e Santos (Torcida Jovem), em uma homenagem aos mortos na queda do avião que levava o time da Chapecoense, quase nos faz acreditar em milagre.

Muita gente comemorou a bonita confraternização, na praça Charles Miller, em frente ao estádio do Pacaembu. Torcedores adversários conversavam como numa festa de fim de ano da firma. O colorido das bandeiras se misturava ao vento. Não havia dúvida de quem torcia para quem, mas todos eram Chape, todos estavam unidos por uma paixão ferida dolorosamente.

É muita ingenuidade acreditar que essa trégua seja sinal de amadurecimento entre os torcedores, por uma simples razão: o saldo de mortes relacionadas a brigas entre torcidas de futebol é tenebroso. De 2010 a abril deste ano, 113 pessoas morreram simplesmente porque torciam para o time errado, na hora errada, no local em que estavam grupos rivais.

Essa estatística prova que o sentimento motriz da aproximação das torcidas no último domingo não foi empatia, solidariedade ou a percepção de que brigar por causa de futebol e tirar a vida de um adversário é apenas uma ignorância monstruosa.

Não dá para se enganar. As cenas de corintianos e palmeirenses entoando em uníssono cantos de exaltação à Chape foram embaladas pelo calor do momento, pelo luto coletivo, que talvez não dure até a próxima rodada. Todo mundo quer tirar uma casquinha da comoção e ficar bem na fita. Fala-se agora que o PCC estaria por trás da trégua. Talvez só assim. Ou um milagre.

O episódio da queda do avião da Chapecoense e as brigas de torcida têm mais em comum do que parece. São situações que poderiam ser evitadas não fosse a estupidez humana. No caso do avião, a inacreditável economia de combustível. Sobre as brigas de torcida, o equívoco da rivalidade transformada em raiva, combustível que transforma torcedores em potenciais agressores.

Quando a disputa falar mais alto, será possível que duas torcidas se encontrem depois de um jogo e troquem cumprimentos fraternos ou sentem no bar para tomar cerveja e xingar a mãe do juiz?

Comportamentos condenáveis, mas ainda assim agressivos poderiam já estar no passado, mas se repetem à exaustão nos estádios. A torcida continua protagonizando cenas de racismo e de homofobia sem que nada de eficaz seja feito para coibir tais atitudes.

O mesmo torcedor que se sente à vontade para gritar “bicha” na hora da cobrança de escanteio deve achar natural provocar o adversário com impropérios ou se armar com paus e pedras para enfrentá-lo no meio da rua.

Tudo isso tem a mesma raiz: falta de educação e empatia. E continuam acontecendo também por uma razão comum: falta de punição. As organizadas fecham os olhos para o comportamento criminoso de seus afiliados. Clubes e federações ignoram que as torcidas têm ligações com a contravenção. Pouca coisa é investigada e apenas 3% das infrações são punidas.

Fingimos que somos todos Chape, que somos todos unidos por uma paixão. Até que mais um torcedor morra espancado ou baleado. Tudo em nome do futebol.

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