O Trump nosso de cada dia

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Da FOLHA

Por TATI BERNARDI

O homem mais poderoso do mundo ser também um dos mais xenófobos, racistas e sexistas, infelizmente, me trouxe lembranças do tempo que fui redatora publicitária. Em meio a muita gente bacana, tinha algo de podre ali. Só que o discurso de poder, para alguém tão jovem e em busca de “gurus e uma vida melhor”, era bastante sedutor.

Na primeira agência que trabalhei, tinha um diretor de arte, muito bem sucedido para a idade, que jamais aproveitou sua popularidade com as moças: “Mulher só na Rússia, Suécia… no Brasil é tudo bagulho”! Anos depois se bandeou para algum país desses atrás de virgens (achava nojento ter que trocar fluidos com moças “usadas”)! A quantidade de publicitários que importam senhoritas pra São Paulo é gritante. Boa é a doce brejeira “que ninguém que eu conheço comeu” ou a clássica Barbie interesseira que aos 30 e muitos AINDA não descobriu uma profissão de verdade. Desfilavam com essas princesas querendo simplesmente a atenção de outros homens.

Tive uma colega estagiária que dividia os jobs comigo e era excelente redatora (hoje em dia provavelmente ganhando milhões) e um ser humano bastante duvidoso. Uma tarde ela “desistiu” de ser amiga de uma garota do atendimento porque “aff, ela gosta de samba e anda com uns neguinhos”. A pequena nazi tinha imagens de Jesus por toda a casa, mas se um pobre aparecesse em suas festas tinha que ocupar imediatamente a função de entretenimento. Seu corpo era inteiro retesado pela contenção de impulsos sexuais (queria fazer um bom casamento) e nunca escondeu que me achava uma vadia. Um dia “entrou” no meu e-mail e falou alto, pra quem quisesse ouvir: “Vamos ver que tipo de mensagens ela troca com as pessoas”, como se eu fosse uma espécie selvagem a ser observada.

Quando fui contratada pela agência considerada, na época, uma “escola de redatores”, passei o maior sufoco para provar que eu escrevia bem apesar de “usar umas roupinhas bregas e ser ZL”. A sócia aristocrata, uma senhora claramente incomodada com a fartura dos meus colágenos, me detestava e pedia diariamente a minha cabeça. Já em uma das últimas que trabalhei, o dono tinha um carro (ele tinha vários, na verdade) sem placa (e todos sem placas) porque se achava acima do bem e do mal. Ele dirigia tão ridiculamente rápido que, depois de pegar carona em um almoço de final de ano, sofri de labirintite por meses. Era comum ele demitir pessoas que considerasse ou feias ou gordas ou “com roupa de firma”. Quando quase me atropelou na entrada do prédio, eu cheguei a achar que era piada (ops, ele quase me matou, então vamos morrer de rir! Que lavagem cerebral!), mas ele nunca riu.

Durante anos “duplei” com um tiozinho arrogante que passava o dia no telefone tentando contratar algum gringo premiado para colocar no meu lugar. Ele marcava de ver portfólios e deixava (não estou brincando) os estudantes esperando um dia inteiro. Quando ele foi demitido, trabalhei o final de semana inteiro para juntar suas coisas em caixas e o agradecimento dele foi: “Cuidado pra não quebrar nada!”. Em sua festa de despedida, algumas meninas da agência ganharam prêmios como “a melhor indo” e “a melhor vindo”.

Por alguma razão essas pessoas eram (são) celebradas em anuários e festas e almoços. “Ah, fulano é foda”. Por alguma razão ganham muitos prêmios por campanhas sociais. “Ah, ‘quedocaralho’!”. Ontem, no meu Facebook, eram declaradamente os menos incomodados com o rumo bizarro que o mundo está tomando. Era só mais do mesmo.

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