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‘Tempos vividos, sonhados e perdidos’ com o brilho de Tostão

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DA FOLHA

Por JUCA KFOURI

Escrever sobre futebol como Tostão é algo tão raro que só alguém como Tostão seria capaz de fazê-lo.

Uma qualidade conhecida dos melhores jornalistas americanos está em escrever como se fala.

Tostão escreve como jogou.

É um privilégio tê-lo visto atuar por uma década, entre 1963 e 1973, e outro poder lê-lo duas vezes por semana.

Por mais que ele ache um exagero, Tostão faz parte de minha seleção brasileira de todos os tempos.

Sua capacidade de simplificar cada jogada, de resolver num toque o que a maioria precisa de dois ou três, a visão de jogo que sempre teve no gramado e a capacidade de transcrevê-la no papel, fazem dele um oráculo.

Se nos times foi um entre 11, no colunismo de futebol Tostão é único. O melhor de todos.

O novo livro que lançou, com o selo de qualidade da Companhia das Letras, é um colosso.

Sem firulas, mas com arte e magia, Tostão viaja por meio século de futebol de maneira a obrigar que o leitor viaje com ele de olhos fechados e bem abertos.

O ideal seria até que alguém lesse em voz alta para que o apaixonado por futebol, e pela vida, pudesse curtir, sem nenhum esforço, cada detalhe da análise histórica sobre a evolução do jogo e, ao mesmo tempo, pudesse saborear as histórias que ele viveu ao lado de gênios como Pelé e Garrincha.

De quebra, as orelhas com o texto de José Trajano e um capítulo revelador escrito pelo oftalmologista que o pôs para jogar a inesquecível Copa de 1970, o Dr. Roberto Abdalla Moura.

É claro que o livro não tem só qualidades.

Porque tem o grave defeito de ter apenas 195 páginas, que fazem você chegar ao fim economizando a leitura para que não termine e deixam gosto de quero mais.

Dizer que Tostão é um intelectual do futebol pode soar pedante.

Ele é, isso sim, um humilde filósofo capaz de tratar as duas faces da mesma moeda, o esporte e a vida, como se fossem uma coisa só. Porque são.

Com a vantagem adicional de você não precisar concordar 100% com o que diz. Nem ele gostaria, democrata de raiz que é.

Mas, atenção: a probabilidade de você discordar e ele estar certo é também próxima dos 100%.

Há obras, filmes, peças, quadros, jogos de futebol, que você pode ver e gostar e depois alguém mostrar que não houve assim tantos motivos para tal.

Daí ser particularmente gostoso quando é possível indicar um livro com a certeza absoluta de que ninguém desgostará. É o caso deste “Tempos vividos, sonhados e perdidos”.

Que o fará viver, sonhar e ganhar o tempo investido no desfrute de suas páginas –poucas, insuficientes, repita-se.

“Ah, mas você é amigo do Tostão”, dirá a rara leitora e o raro leitor.

Lamento, mas quem me dera.

Sou, sim, admirador desde sempre do Tostão jogador do Cruzeiro e da seleção brasileira.

Como sou fã número 1 do colunista.

Amigo nem tanto, porque eis aí um gênio da raça muitas vezes impenetrável, embora sensível e solidário como poucos.

Para não parecer falsa modéstia, de fato, já fui motorista dele na Copa do Mundo de 2010 e o tive, aí até mais que amigo, como meu carinhoso cuidador na Copa das Confederações de 2013.

Não teve preço. Como o livro.

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