Olimpíada de vida ou morte para os norte-coreanos

ditador coreano

Da FOLHA

Por ANDRÉ BARCINSKI

Durante os Jogos Olímpicos é comum ouvir comentaristas dizendo que atletas “dão a vida” por uma medalha, significando que eles abdicam de uma vida normal para treinar e dedicar-se somente ao esporte. Mas há uma delegação de atletas para quem a vitória ou a derrota podem, de fato, significar a diferença entre viver ou morrer: a delegação da Coreia do Norte.

Dominada por um regime totalitário dos mais fechados e violentos do mundo, controlado com mão de ferro pelo “líder supremo” Kim Jong-Un, a Coreia do Norte ganhou quatro medalhas de ouro na Olimpíada de Londres, em 2012. De acordo com o jornal “The Washington Post”, Kim Jong-un quer mais e instruiu a delegação a voltar dos Jogos do Rio com cinco medalhas douradas.

Norte-coreanos sabem o que acontece com quem desaponta o líder supremo. Em maio de 2015, Kim Jong-un foi visitar uma fazenda de criação de tartarugas e percebeu que algumas haviam morrido por falta de comida. Prontamente mandou executar o dono da fazenda para servir de exemplo.

Kim Jong-un não perdoa nem a família: em 2013, acusou de traição e mandou fuzilar o tio, Jang Song-thaek, um dos líderes do governo, chamado em uma nota oficial de “desprezível escória humana, pior que um cão”. A viúva reclamou e foi executada por envenenamento.

Com quase metade dos Jogos Olímpicos já realizados, a situação da delegação norte-coreana é dramática: nenhum dos 31 atletas que vieram ao Rio de Janeiro ganhou uma medalha de ouro. Até a conclusão desta coluna, o país contabilizava quatro medalhas (uma a menos que o Brasil, que tem 465 atletas).

Uma das grandes esperanças de medalha de ouro era o levantador de peso Om Yun-chol. Tricampeão mundial e campeão olímpico em 2012 na categoria até 56 quilos, Om Yun-chol, um tampinha de 1,52 m e pouco mais de 55 kg, foi o quinto homem na história a levantar o triplo do próprio peso e é recordista mundial com 171 kg no arremesso.

No Rio, Om Yun-chol fez uma prova fantástica e liderava até a última série, quando o chinês Long Qingquam conseguiu levantar 170 kg no arremesso e o ultrapassou. Arrasado, Om Yun-chol disse aos jornalistas: “Não acho que posso ser um herói para meu povo com uma medalha de prata”.

A Coreia do Norte ainda vai competir no atletismo e na luta olímpica, mas difi- cilmente chegará às cinco medalhas de ouro pedidas por Kim Jong-un. O que estarão pensando atletas e técnicos norte-coreanos numa hora dessas? Estarei na torcida por todos eles.

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