O cantor chamado Cauby

Cauby

Da FOLHA

Por RUY CASTRO

Certa vez, em criança, vi um passarinho morrer. Era um canário e suas penas estavam na muda. Deixou de comer, as penas caíam e não eram repostas. Mas não se percebeu que havia algo errado porque, por mais jururu que ele parecesse, nunca deixou de cantar. Um dia, cantou pela manhã. À tarde, pulou para o fundo da gaiola. Pareceu hesitar por um instante, caiu para um lado e morreu.

Cauby Peixoto, que morreu domingo (15) em São Paulo, aos 85 anos, lembrou-me este passarinho. Uma pneumonia levou-o a um hospital e, segundo os relatos, a morte lhe veio com suavidade — em paz, entre amigos, o coração apenas parando. Poucos dias antes, apresentara-se com Angela Maria no Municipal do Rio. Era o que se esperava dele e dos passarinhos: cantar — se possível, para sempre.

Praticamente nunca se ouviu de Cauby uma frase que não tivesse sido escrita pelos letristas, bons ou maus, que forneceram seu repertório — os versos que cantou em “Conceição”, “Molambo”, “Nono Mandamento” e centenas de canções em incontáveis ritmos, alcances, andamentos e línguas. Fora do palco, Cauby sempre driblou as perguntas que tentavam jogá-lo contra colegas, nunca emitiu uma única opinião política e atravessou a vida como se não tivesse sexo ou idade. Só cantou.

Talvez tivesse sido maior ainda se não insistisse em se impor como cantor a todas as canções que gravou, às vezes asfixiando-as com vibratos, floreios e maneirismos. Mas, para exigir isso dele, teríamos de fazer o mesmo com João Gilberto, Lucio Alves e Orlando Silva, outros excepcionais cantores que também impunham sua autoridade sobre as canções, vergando-as a seus estilos. Claro, só faz isto quem pode.

Eu me pergunto se Cauby de fato existiu. Ou se o que conhecemos foi um homem que, à sua maneira perfeita e única, interpretou um cantor chamado Cauby.

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