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Apartheid brasileiro: o caso do Maracanã

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Por PAULO METRI*

É um sobressalto para qualquer alma encarnar, como acreditam os espíritas, em um ser humano que viverá em um país capitalista. O ser pode não ser agraciado geneticamente com uma mente e um corpo propícios à sobrevivência neste sistema. Além disso, a aleatoriedade pode escolher um núcleo populacional sem respeito à vida, sem garantia de instrução, atendimento à saúde, acesso a moradia etc, graças à própria agressividade que o capitalismo induz. O núcleo familiar receptor pode também contribuir para a desgraça do ser, que, a estas alturas, se consciente da roleta que participa, desejará não mais nascer.

Estou sendo um pouco radical, uma vez que esta roleta tem uns poucos números de sorte, que correspondem a locais na Terra onde há vida menos desumana, com o capitalismo mitigado. Existem algumas sociedades em que cada ser tem maior consideração com seus pares, apesar de não se importar que haja exploração dos seres de outras sociedades. É como se os seres estrangeiros não pertencessem aos humanos. As guerras, em muitos casos, são consequência da exploração alheia. Se esta necessidade de acúmulo de riquezas não for domada, ela levará à extinção da espécie, dado seu alto grau de exploração humana, guerras e agressão ao meio ambiente.

Mas, em um ponto, pode-se falar a favor do capitalismo, pois é um grande promotor de desenvolvimentos tecnológicos, apesar de ser com o objetivo de acumular mais capital. É interessante notar que nunca se observa que a acumulação positiva de um grupo gera um déficit de acumulação ou carência de outro. De qualquer forma, a competição inspira mais o desenvolvimento tecnológico que a solidariedade.

Esta divagação me gratifica, mas preciso dizer algo sobre o Maracanã, porque é necessário justificar o pensamento que me motivou a escrever e me levou a este título. Uma confluência de interesses, principalmente políticos e econômicos, levaram as forças relacionadas a se mobilizarem para trazer a Copa do Mundo para o Brasil. O povo mesmo não foi consultado e, a bem da verdade, foi muito mal informado. Os políticos acreditavam que conseguir trazer a Copa para o Brasil renderia muito crédito político, se não fosse com o povo, certamente seria com os empresários.

Capitais nacionais e estrangeiros vislumbraram uma excelente oportunidade para aumentar suas riquezas. A FIFA tinha seus ganhos como certos, qualquer que fosse o local da Copa, graças à psicose mundial com relação a este esporte. Com isso, qualquer país hospedeiro abre mão de decisões suas para se submeter à ditadura da FIFA. Não recrimino a humanidade por eleger o futebol como uma das suas maiores obsessões, até porque ele ajuda as pessoas a se deleitarem durante o efêmero tempo nesta superfície. A FIFA tem interesse de preservar a característica circense do evento, para garantir o sucesso de outras Copas. Aliás, gladiadores lutavam contra seus iguais, cristãos desarmados eram entregues aos leões, na antiga Roma, para a máxima “diversão” do espetáculo.

 Os Clubes brasileiros e as administrações estaduais descobriram uma forma de ganhar estádios novos com verba pública federal, de graça para eles. Verba esta, oriunda de imposto, que fez falta nos orçamentos da saúde, educação, moradia etc. Os construtores aproveitaram e impuseram reformas desnecessárias ao governo precipitado que decidiu sem visão social e só com interesse político. Ganham muito também empresas do esporte, agências de viagem, empresas de transporte, agências de propaganda e, sem dúvida, as empresas de mídia com o direito de transmissão. Enfim, o circo beneficia muitos, até o povo com a manutenção da esperança de alegrias.

O conluio no Brasil envolveu os mesmos grupos de outras Copas: FIFA, políticos, construtores etc. Para alegria dos construtores, concluíram erradamente que o Maracanã tinha que ser colocado abaixo e construído outro no lugar. O antigo era popular, pois alguns destituídos de dinheiro podiam assistir ao jogo até de perto, sem ver imagens de duas dimensões em uma tela, sentindo o cheiro do suor dos jogadores. Nele, o pobre conseguia ser aceito.

A versão das mentes servas do capital era: “O Maracanã precisa ser destinado a quem conquistou na sociedade o direito de ver belos espetáculos”. Continuavam dizendo: “Um Zé Ninguém não pode ter o direito de ouvir os berros dos jogadores, enquanto a elite está surda”. E concluíam: “Não se sabe onde estava a cabeça dos projetistas do antigo estádio com total repulsa à hierarquia social”. Esses destruidores do patrimônio popular deviam ir a um jogo de baseball em Cuba, o esporte mais popular deste país, para ver os portões totalmente abertos, sem bilheterias, com o povo entrando e sentando livremente. O único critério para a conquista de um assento era ter chegado cedo. Era assim, há uns quinze anos. Torço para que ainda seja.

Assisti, pela televisão, ao jogo final da Copa do Brasil do ano passado, que foi no novo Maracanã. Mesmo que estivesse motivado a ir ao estádio, me negaria a pagar mesmo o preço mínimo de R$ 250. A partir da televisão, o estádio parecia muito bonito. Aliás, pelo que foi gasto, se não parecesse, era o caso de se reivindicar uns fuzilamentos. Mas, o que mais me chamou a atenção foi, quando uma câmera, que provavelmente estava fixada em um trilho no teto do estádio, começou a deslizar mostrando a torcida do Flamengo. Era um mar homogêneo de torcedores brancos, cheios de dentes brancos, bem nutridos e vestidos e, por aí, vai. Veio à minha cabeça, por uma fração de segundo, a impressão que o Bolsa Família tinha conseguido um resultado inusitado, pois até o branqueamento da sociedade brasileira imaginado por conservadores do início do século passado tinha ocorrido. Mas, aquela era a imagem de um subgrupo extremamente minoritário dos flamenguistas. Ali, não tinha o povão torcedor do time, que forma a grande massa dos torcedores. Aí, veio a pergunta: “Onde está o povo?”

O povo está se comprimindo nas portas de bares e restaurantes, que têm telão, ou vendo em uma telinha pequena em casa. Dependendo do dia, ele pede uma cerveja para o dono do bar não olhar com cara feia. O povo foi expulso do Maracanã, com a adoção da proposta do capital. Não sei o que representava uma ida ao Maracanã para um torcedor verdadeiro, pois nunca fui um aficionado, mas, sou levado a crer que a reforma deste estádio foi sobejamente desaprovada. Para tornar pior o ato dos governos, a verba que o “modernizou” era pública, então ela não poderia ser usada para benefício de uma casta da sociedade. Hoje, o Maracanã, certamente, não parece com a Praça Castro Alves de Salvador, porque esta é do povo.

*PAULO METRI é engenheiro e escreve no blog http://www.paulometri.blogspot.com.br/

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16 Responses to “Apartheid brasileiro: o caso do Maracanã”

  1. Villadoniga Says:

    Fantástico como esse artigo é seletivo ao tratar deste tema- reforma do maracanã…

    O fato da reforma ser ilegal – ao menos da parte tomada pelo iphan – é irrelevante…. Porque atende interesses de governos ideologicamente aceitáveis só autor do texto.

    “tudo bem se a lei fosse estuprada, como foi, desde que uma vitória ideológica se impusesse..” É o que insinua o autor.

  2. Villadoniga Says:

    *tombada

    * ao autor

  3. Jeremias Says:

    “Em Cuba os portões eram abertos…”; “Era o caso de se reivindicar uns fuzilamentos…”; “Nunca fui um aficionado…”. Amigo, volta pra tuas obras (é engenheiro, não?), por favor!

  4. Carlitus Says:

    Um assunto que merece ser tratado com equilíbrio e honestidade intelectual. Quanto ao texto do Sr. Paulo Metri, o mesmo está invalidado pela contaminação ideológica do autor. Texto típico de um colegial iniciado no esquerdismo Tapuia que assola o pais.

  5. José Oliveira Says:

    Como sempre digo aos meus amigos, o meu, o seu, o velho Maraca acabou, agora ele é o MARIO FILHO HALL.

    Romário, neste final de ano confirmou isso quando disse que destruíram o Maracanã.

  6. José Oliveira Says:

    Amigo Villadoniga,

    Tem mais, a marquise do Maracanã foi motivo de inúmeras aulas nas faculdades de engenharia e arquitetura, não só no Brasil. Uma portentosa obra de toneladas de concreto suspensas sem uma viga sequer. Vídeos raros mostram como foi difícil a retirada do escoramento da mesma, de modo que ela não partisse. Foram semanas afrouxando de graus em graus até que ela se estabilizasse.
    Tudo isso para que um governo corrupto colocasse no chão em poucos dias.
    E ainda, a corrupção desse governo Cabral, associada ao grupo de Eike Batista e do Cachoeira (que saiu da obra no início sem devolver os adiantamentos), de quebra, para viabilizar a sua privatização e obrigar aos clubes a “fecharem” contratos com o Consórcio Maracanã (cujo edital foi escrito pela empresa vencedora), fecharam o Engenhão para que não houvesse uma opção para os clubes. Se há ou não problemas no Engenhão, quem passa por lá vê uma grua sempre parada, mas certamente não seria motivo de sua interdição total. Apenas interesses foram vistos, pois hoje o Consórcio cobra em média 300 mil por jogo (pasme!), valor esse que certamente retornará aos bolsos do Cabral e partidos aliados na forma de Contribuição de Campanha.
    Esse país me dá nojo!!

    PS: A construção do Maracanã foi o primeiro estádio construído especialmente para uma Copa. Até então, a sede da Fifa era numa salinha na Suíça. Já na copa de 54, a sede da Fifa era um edifício.

    “Mudaram as estações, nada mudou
    Mas eu sei que alguma coisa aconteceu”
    Cássia Eller

  7. vinicius Says:

    O autor devia se mudar para Cuba. Lá é que é bom. Um paraíso de comunismo no meio deste ‘inferno’ capitalista.

  8. zé ferreira Says:

    acabaram com o geraldino, um dos maiores patrimônios do futebol brasileiro.

  9. Apaz Says:

    E eu digo: ARENA É PARA TOURADA! Futebol é em estádios! Ainda bem que São Januário continua ESTADIO e é tombado pelo patrimônio histórico.

  10. Albuquerque Says:

    “É interessante notar que nunca se observa que a acumulação positiva de um grupo gera um déficit de acumulação ou carência de outro.”

    Realmente, nunca se observa. Isso porque há muito que qualquer um com o mínimo de compreensão da geração de riquezas no mundo sabe que a economia não é um jogo de soma zero. Toda a riqueza humana é produzida, não está aí no mundo para ser dividida. Se um indivíduo vê um campo vazio e planta ali, dando parte dos legumes obtidos para outros indivíduos que ajudaram na colheita, todos enriqueceram nessa transação – onde nada havia, passou a haver uma plantação de tomates, e os que colheram não tinham nada, agora tem alguns tomates. Por isso, é falsa a noção de que para uma pessoa enriquecer, outra tem que empobrecer. A quantidade de riqueza no mundo não é estática.

    As suas críticas às “empreiteiras capitalistas” em nada se assemelham ao ideário da direita. Quando que os defensores de um estado mínimo alegariam ser positivo ou atribuição do governo gastar dinheiro público com estádios de futebol? É muita ignorância. Ao contrário, essa centralização da economia nas mão de um governo todo poderoso, em que prevalecem as empresas que tem conchavo com o governo em detrimento das que oferecem melhor serviço por menor preço é algo TÍPICO de governantes com mentalidade esquerdista.

    Por fim, gostaria de lembrar a lição que a história ensina. Todas as vezes que se tentou o socialismo houve fugas em massa da população para a economia capitalista mais próxima (inclusive continuam acontecendo, com os balseiros cubanos). Sempre o governo teve que tomar medidas extremas contra os dissidentes, como fuzilamento e campos de concentração (os Gulags, que inclusive “inspiraram” Hitler). Aberrações como o muro de berlim tiveram que surgir. O mesmo movimento jamais se observou em sentido contrário. Não se tem notícia de nenhuma “fuga” em massa de um país capitalista para um socialista (coloco “fuga” entre aspas porque em países capitalistas não é necessário fugir, já que se tem liberdade de ir e vir). Quantas pessoas mais terão que morrer e sofrer para vocês desistirem dessa idiotice chamada comunismo? Quantas experiências desastradas, com posteriores desculpas esfarrapadas para o retumbante fracasso ainda ocorrerão?

    Paulinho, esse tipo de texto não merece repercussão de um jornalista com a sua audiência.

  11. Carlitus Says:

    O autor do texto precisa ser informado que agora não temos mais “clientes” para frequentar a geral. Afinal de contas, graças ao PT, todos os antigos geraldinos agora pertencem à classe média, não é mesmo? Mas, como todo comunista odeia classe média, o PT a essa altura deve estar arrependido de sua própria obra!!!

  12. Casoares Says:

    Senhor Paulo Metri, o povo está vendo o jogo que se realiza no Maracanã pela TV, dando audiência para a Rede Globo, que quem realmente manda no futebol brasileiro. Depois dizem que o povo brasileiro é o mais “isperto” do mundo.

  13. RARARA Says:

    O capitalismo brasileiro e corporativista pois da poucas oportunidades para a população se desenvolver,È isso que esta acontecendo com os preparativos da copa,só lucra os grandes como construtora,redes de tv,fifa e mais uns poucos,o sistema que mais distribui renda é o capitalismo liberal com muito pouca intervenção do governo na economia, é o que ocorre na coreia do sul.Ao autor sugiro então ir para cuba assistir jogos de graça até porque la dinheiro não rola e as pessoas vive das migalhas socialista.E é tão bom que as pessoas se ariscam em precárias embarcações para se livrar da escravidão daquela ilha isso mesmo escravidão.

  14. Luiz Manoel Says:

    Nao vou entrar nas discussões acerca do Maracanã e da copa no Brasil, que a meu ver nem teria necessidade e justificativa para aqui ser, mas quero falar dessa critica ao sistema capitalista que o autor do texto colocou para iniciar suas ponderações ao que foi feito com o Maracanã para reforma-lo para a copa. Muito fácil disser do capitalismo sem entrar na questão de fundo que e a relação do ser humano com o poder. Antes de Marx estudar e criticar o sistema do capital ja existia na humanidade o poder. Antes do dinheiro existir ja existia a luta pelo poder de um homem sobre o outro ou de um homem e grupo sobre uma comunidade ou sociedade, etc. Esse e o grande problema. Coloquem o comunismo ou o socialismo no Brasil ou em qualquer nação e vocês verão um ser humano combater o outro pelo poder nas entranhas das burocracias e dos ambientes de governo que os outros sistemas geram (comunismo e socialismo). Existe a desigualdade no capitalismo e isso precisa ser combatido, mas de nada adiante criar governos mais centralizadores porque veremos mais poder na mao de um homem ou um grupo. O problema humano maior e lidar com o poder. E poder existia antes do dinheiro, do capital, etc. Democracia sem reeleições, leis feitas por congressos honestos e governos dignos para seguir as leis que os representantes honestos discutiram e aprovaram na casa de leis. Senhores dignos e conscientes de exercer o poder judiciário e punir o desonesto e garantir a honestidade num sistema ue garanta a liberdade para todos buscarem seus sonhos, numa sociedade com educaco para todos e saude para todos. Em teoria essa e a saída. Acabar com os corruptos. Enaltecer os honestos. Deus na conduta de cada um. Ter fé em Deus e ser digno na vida. Muio fácil jogar a culpa no sistema. Trouxe o sistema e veras que o problema continuara.

  15. ODILON SILVA = RJ Says:

    Tudo falta de patriotismo, deveriam ter programado o maracana para cento e cinco mil pessoas, o maraca continuaria sendo de fato o maior do mundo.Enquanto isso, decisão de polo no gelo nos Estados Unidos, jogo com cento de oito mil pessoas no estádio. Não foi só o maracana, povo baiano adora futebol, a fonte nova agora só cabe cinquenta e cinco mil pessoas. A população aumentou, mais o direito de ir num estádio diminuiu muito.

  16. Delegada Helô Says:

    Ideologias políticas a parte. O texto condiz com a realidade, embora eu acredite que deveria haver igualdade na distribuição de rendas (sem os métodos comunistas e os capitalistas) A história provou que o comunismo, TAMBÉM, beneficia apenas um grupo, prova disso são União Soviética (Rússia), Cuba, Venezuela, China e por aí vai, onde existem bilionários e miseráveis, igual aos partidos políticos, para mim é só nomenclatura e siglas, todos os sistemas privilegiam uma parte da sociedade, que sempre se dá bem e a outra que se rala, trabalhando muito, pagando altos impostos e, recebendo só migalhas. Enquanto não existir respeito pelo ser humano e suas necessidades básicas não haverá forma de governo que realmente seja boa, mas tem as que são bem piores como as ditaduras, e o comunismo está repleto delas. Quanto ao Maracanã ter sido elitizado, as demais arenas e estádios também o foram. Nosso governo acredita e tenta passar a ideia de que o Brasil erradicou a miséria, por isso a diversão do brasileiro de ir ao estádio ver seu time do coração se tornou uma utopia, pelos preços praticados as classes B e C que antes compravam ingressos populares serão, realmente, privadas de irem aos jogos, com isso só as classes privilegiadas irão assistir in loco as partidas, já o populacho que veja em casa, nas ruas e nos bares e aplaudam o pão e circo.

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