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Deputado Romário e o discurso que pede Justiça

Confira, na íntegra, o vídeo e a respectiva transcrição do histórico discurso realizado pelo deputado Romário pedindo investigação contra os agentes da ditadura, que tanto envergonharam a população brasileira.

Entre eles, o atual presidente da CBF, José Maria Marin, que discursou à época, a favor de torturadores, chegando ao cúmulo de pedir “providências” contra alguns dos que lutavam contra o regime, entre eles o jornalista Vladimir Herzog

“Senhor Presidente, Senhoras e senhores parlamentares:

Foi com grande satisfação que li a notícia sobre a manifestação da ministra dos Direitos Humanos, Maria do Rosário, em apoio ao discurso que eu proferi na semana passada, defendendo que sejam investigadas as possíveis relações entre o presidente da Confederação Brasileira de Futebol, Senhor José Maria Marin, e os órgãos de repressão do regime militar.

Como todos sabem, o Senhor Marin militou na ARENA, o partido da ditadura, e pode ter tido participação, mesmo que indireta, nos eventos que levaram ao assassinato do jornalista Vladimir Herzog, nas dependências do DOI-CODI.

Na condição de presidente da CBF, José Maria Marin estará ao lado da presidente Dilma Rousseff na recepção aos chefes de Estado que virão para a Copa das Confederações, em junho deste ano, e para Copa do Mundo, no ano que vem.

E eles dividirão, possivelmente, a mesma tribuna de honra nos eventos esportivos.

Acho que essa proximidade será meio constrangedora para nossa Presidente, pois ela conheceu de perto, muito perto, a brutalidade daquele regime que prendia e torturava, à margem da lei, contando com o apoio do ex-vereador, ex-deputado estadual e ex-vice-governador de São Paulo, Senhor José Maria Marin.

Como afirmou o jornalista Zuenir Ventura, em artigo no Globo, chega a ser irônico que um admirador do torturador Sérgio Paranhos Fleury esteja à frente do nosso futebol, quando o país é presidido por uma pessoa que sofreu nas mãos dos torturadores.

Eu diria, Senhor Presidente, que esse é o tipo de ironia que não tem a menor graça.

Eu gostaria de transcrever uma parte da fala da Ministra Maria do Rosário, como foi reproduzida no jornal O Globo, para que fique registrada nos anais desta Casa.

Ela disse o seguinte (abre aspas):

“Eu penso que todas as pessoas que comprovadamente estiveram envolvidas em situação de morte, tortura e desaparecimentos forçados não devem ocupar funções públicas no país.

Porque os que cometeram – e se cometeram comprovadamente estes atos –, traíram qualquer princípio ético de dignidade humana e não devem ocupar funções de representação”. (Fecha aspas)

Por isso, vou solicitar audiência com a Senhora Ministra, para agradecer pessoalmente essamanifestação muito oportuna e bem-vinda, pois se trata do primeiro apoio público do Governo Federal à campanha que se realiza em todo o país, com o objetivo de sabermos, efetivamente, sobre o passado político do atual presidente da CBF e sua ligação com a ditadura militar, de triste memória.

Eu soube hoje que o Senhor Wadih Damous, presidente da Comissão Nacional dos Direitos Humanos da OAB e da Comissão Estadual da Verdade do Rio de Janeiro, declarou considerar “correta e urgente” a convocação do presidente da CBF pela Comissão Nacional da Verdade, a fim de que ele possa explicar as suas ligações com a ditadura militar no Brasil.

Ele disse o seguinte:

“Marín era membro do partido que dava sustentação parlamentar à ditadura e, à época do suplício de Vladimir Herzog, o atual dirigente da CBF proferiu discursos agressivos e com nítido caráter de delação contra o jornalista”.

Aliás, tem ganhado corpo a campanha que a família Herzog lançou nacionalmente, com vistas ao afastamento de José Maria Marín da presidência da CBF.

Até o momento, já foram coletadas mais de 40 mil assinaturas pela internet.

Trata-se de um movimento que merece nossa atenção e adesão.

Eu quero deixar aqui registrado o meu apoio e convidar os colegas deputados e deputadas, e todos os brasileiros, a fazerem o mesmo, em nome da democracia e dos direitos humanos, que são direitos de todos e cada um de nós.

A essa preocupação que eu tenho manifestado, Senhor Presidente, se somam outras.

Não podemos esquecer que o Senhor Marin, à frente da CBF, tem sob o seu comando a principal manifestação esportiva de nosso país, que é o nosso futebol.

A nossa Seleção é mais do que um time, é uma manifestação cultural acompanhada de modo apaixonado nos quatro cantos do Brasil, como eu pude testemunhar bem de perto.

A seleção leva, por onde passa, o nome do Brasil, a nossa bandeira, as nossas cores, o nosso hino – e, principalmente, os nossos jogadores.

Tem gente que conhece muito pouco do nosso país, da nossa cultura, mas conhece o futebol e os jogadores do Brasil.

Por isso, não seria exagero dizer que ela é um símbolo nacional. Nélson Rodrigues dizia que a paixão dos brasileiros pelo futebol é tão forte, que não seria exagero dizer que o Brasil é “a pátria de chuteiras” – uma expressão feliz, que, aliás, se tornou o slogan oficial da Copa de 2014.

Senhor Presidente, Na última semana eu comentei sobre a parceria da CBF com a poderosa multinacional Nike.

Insisto neste assunto, pois entendo que, ao explorar a imagem desse símbolo do nosso país, a CBF deve prestar contas e ter transparência nas suas ações. Eu insisto, por exemplo, em conhecer a destinação desses patrocínios à Seleção Brasileira.

Quem ganha e quanto ganha?

Quem se beneficia da comissão de mercado nessas transações milionárias?

Além da Nike, outras empresas investem no uniforme da Seleção, como a Ambev, o Banco Itaú, Gillette, Vivo, etc.

Consta que, depois da Nike, que destina, em média, R$ 70 milhões anuais à CBF, a Ambev é a principal investidora.

Conforme o contrato, são 15 milhões de dólares anuais, mais de 30 milhões de reais.

Estamos falando, aqui, de uma instituição gigantesca, que opera com valores vultosos, mas cuja transparência não existe, sabe-se lá por quê.

Dessa forma, crescem as suspeitas sobre o destino dos patrocínios milionários.

Afinal, quem se beneficia dessas somas, captadas em nome do nosso maior patrimônio esportivo, a Seleção Brasileira?

Ao pedir “transparência” na CBF, que é gestora de um futebol deficitário, com público cada vez mais reduzido nos estádios, indago também sobre outras ações dessa empresa comandada José Maria Marin.

Por exemplo, por que o estatuto da CBF não é documento público?

Por que a CBF não publica o estatuto no seu site, como fazem outras instituições esportivas?

Eu gostaria de saber se foi com base nesse estatuto desconhecido que se realizou a última eleição na CBF, quando o senhor Ricardo Teixeira foi eleito presidente, com José Maria Marín de vice.

Que normas, que exigências tem esse estatuto, que possam nos dar garantias de que aquela eleição atendeu a todos requisitos da legalidade.

Foram cumpridas todas as formalidades legais, desde a convocação da assembleia, registro de chapa, etc., até o voto de todos os eleitores?

Essa ata está disponível para que se possa comprovar a lisura do pleito? São muitas questões, Senhor Presidente, que precisam ser respondidas o quanto antes, principalmente porque estamos entrando no momento de maior exposição do nosso futebol e até mesmo do nosso País.

Acho que o povo brasileiro, que tanto torce, sofre, chora e vibra com a nossa Seleção, tem o direito de exigir um pouco de transparência, um mínimo de respeito.

Era o que tinha a dizer, Senhor Presidente.

Muito obrigado.

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