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Carta ao jornalista Alexandre Lucchetti, do Estadão, referente a matéria de ontem sobre o Nelson Prudêncio

Por ALBERTO MURRAY NETO

Caro Alexandre,

Lí, ontem, a reportagem que você escreveu sobre a morte de Nelson Prudêncio. Permita-me, respeitosamente, ressaltar que Você cometeu alguns descuidos. O primeiro deles ao citar o nome de meu avô, Major Sylvio de Magalhães Padilha. Você escreveu “Guimarães”. Acho que para escrever-se sobre esportes olímpicos, inicialmente, deve-se conhecer profundamente os personagens, principalmente Padilha, um dos mais importantes nomes do esporte brasileiro desde a década de trinta.

Padilha foi um grande atleta brasileiro, o primeiro da América do Sul a ser finalista olímpico em provas de atletismo. Em 1939 ganhou da Helms Foundation, nos EUA, o troféu de maior atleta das Américas, em todas as modalidades. Portanto, a guerra muito provavelmente roubou-lhe uma medalha olímpica. Foi recordista e campeão brasileiro e sulamericano em várias provas. Um de seus recordes, nos 400 metros sobre barreiras, durou cerca de 30 anos.

Você descuida novamente ao relacionar meu avô à tenebrosa ditadura militar, dando a impressão ao seu leitor que ele foi presidente do COB em razão de alguma “botinada” de algum “milico”.

Como jornalista que quer contar histórias sobre o esporte amador, é muito importante que a conheça muito bem. Meu avô NUNCA apoiou o golpe de 1.964. Nunca entrou no esporte por causa do golpe de 64. Foi o maior atleta de sua época e, ainda competindo, na década de 30, fundou o Departamento de Educação Física e Esportes de São Paulo. Regulamentou a prática da educação física no nosso Estado, criou as bases do “esporte para todos”, construiu praças desportivas e foi, sempre, o grande entusiasta da prática do exercìcio físico nas escolas.

Meu avô não assumiu os cargos que teve, nunca, por ordem, por botinada, ou por canetada de militar.

Quando veio o golpe, em 1964, ele já tinha uma folha enorme de serviços prestados ao desporto e, certamente Você desconhece, ela integrava o governo do presidente deposto, João Goulart. Em 1.964 meu avô era vice-presidente do Conselho Nacional de Desportos, nomeado pelo presidente Goulart. Você sabe quem era o presidente do Conselho? Era o Deputado socialista Rogê Ferreira, um homem extraordinário e um dos grandes amigos que meu avô teve na vida.

Quando Rogê foi cassado, imediatamente, no mesmo dia, meu avô demitiu-se do Conselho em solidariedade ao amigo Rogê. Quando Rogê, fugido de Brasília, com as baionetas dos milicos atrás dele, aterrisou em São Paulo, meu avô era a única pessoa a esperar por ele em Congonhas. E dei-lhe toda proteção e assistência.

Ainda sobre a ditadura militar, não foram poucos aqueles que, perseguidos pelo regime, encontraram guarida na casa de meu avô. A família Zumbano (do nosso querido Eder Jofre), militava no PCB. Os Zumbano são sinônimo de boxe no Brasil.

Waldemar Zumbano, outro faterno amigo de meu avô, foi preso, teve sua casa invadida pela ditadura. Se em algum momento meu avô exerceu sua autoridade militar, foi em ocasiões como essa, em que se dirigiu aos quartéis para desafiar a ditadura e ordenar a soltura de gente camarada que militava no esporte.

Nas Olimpíadas de Tokyio, em 1.964, Zumbano integrava a delegação do Brasil. Foi detido no aeroporto por algum milico de plantão e impedido de viajar por ser do PCB. Pois imediatamente meu avô disse que se Zumbano não embarcasse com a delegação, ninguém do Brasil embarcaria. E não hesitaria em tornar público o motivo tosco pelo qual o Brasil não participaria daquela edição olímpica. Zumbano foi imediatamente solto e o Brasil embarcou. Sugiro uma pesquisa junto à família Zumbano. O competente jornalista Fábio Altman é neto do Waldemar Zumbano. E pode relatar-lhe esse e outros fatos.

Ainda sobre ditaduras, antes de 64, por duas vezes, em defesa do esporte, meu avô bateu de frente com o facínora Getúlio Vargas, cujo Estado Novo perseguiu e matou tanta gente.

Em uma delas porque logo após a guerra trouxe para apresentar-se em São Paulo os “peixes voadores”, a equipe de natação do Japão, nação com a qual o Brasil não mantinha relações diplomáticas. Getúlio torceu o nariz e mandou que não se tocasse o hino e nem fosse hasteada a bandeira do Japão. Meu avô peitou Getúlio, o Estado Novo e a ditadura, mandando dizer ao presidente que “os desportistas japoneses seriam recebidos com todas as honrarias que mereciam”. E assim foi feito.

Não por isso, meses depois, Padilha recebeu das mãos do Imperador do Japão a mais alta condecoração daquele país.

Em outra ocasião, deu declarações públicas ao jornal Correio da Manhã, criticando severamente a forma impositiva e ditatorial como Getúlio regulamentou o esporte federal. Isso custou-lhe uma punição severa. Getúlio transferiu meu avô para Passo Fundo, no Rio Grande do Sul, época em que à noite não havia água quente, nem luz elétrica. Isso lhe fez, ainda muito jovem, ser obrigado a abandonar o exército e ocupar-se, exclusivamente, de sua outra profissão, a de professor de educação física.

Em 1984, em uma das poucas vezes em que o vi falar em política publicamente, declarou-se a favor das “Diretas Já”. Eu, com 15 anos encantei-me com um novo partido que surgia, contra o Golpe. E comecei a frequentar o Partido dos Trabalhadores. Sabe quem me levava às reuniões e me esperava até elas acabarem? Sim, meu avô, o Major Padilha.

Ninguém está obrigado a gostar dele, lógico. Mas querer dar a impressão de que ele ocupou algum destaque no esporte por força do regime militar é desconhecimento, ou má-fé. No seu caso, tenho certeza de que má-fé não foi.

Quanto ao tal relato que você faz sobre a possibilidade de excluir o Prudêncio de Munique 72, isso nunca existiu. Posso assegurar a você que meu avô tinha enorme, mas enorme mesmo, admiração pelo Prudêncio.

Eu, com seis anos, vi o Prudêncio ganhar medalha em 72. Logo após a prova, meu avô pegou-me pela mão e levou-me para conhecer o nosso bi-medalhista, alí no túnel que dava acesso à pista. Foi um encontro emocionado e emocionante.

No Pan do México 75 e na Olimpíada Montreal 76 Prudêncio não atingiu os índices. E eu me lembro muito bem certa vez meu avô dizendo em casa: “Eu não vou ficar tranquilo se o Prudêncio não for à competição”.

Há alguns anos, a Organização Não Governamental Sylvio de Magalhães Padilha, que realiza um trabalho social e esportivo em Paraisópolis, fez uma homenagem ao Nelson Prudêncio. Entregou-lhe um troféu. Durante seu discurso de agradecimento, ele, o próprio Prudêncio disse a todos os presentes que “o nosso barreirista Padilha foi muito importante para o nosso esporte”. Era uma época em que talvez Você não saiba, o esporte olímpico vivia com um teste de loteria esportiva em anos de Jogos Panamericanos e Olímpicos. Era uma época duríssima, em um país que nunca viu no esporte um meio de educação e saúde.

Sugiro que você mergulhe na história do nosso esporte amador. Eu tenho muito material que terei imenso prazer em compartilhar com Você. Sobre o Major Padilha, veja o http://www.sylviodemagalhaespadilha.com.br.

Obrigado.

Abraços.

Alberto

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