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Palavra do Magrão

Nelson e o Rei Pelé

Por SÓCRATES

http://www.cartacapital.com.br/app/coluna.jsp?a=2&a2=5&i=3109

Janeiro, no Brasil, é um mês meio diferente. Muitos estão de férias, aguardando o carnaval chegar. A maioria silenciosa espreguiça-se em alguma cômoda cadeira, deleitando-se com o sol que tarda a expulsar a chuva inclemente destes últimos meses, deliciando-se com alguma literatura interessante. Eu gostaria de dividir com vocês, mesmo os que já o leram, um texto imperdível do gênio Nelson Rodrigues que redescobri nestes dias de ócio. Foi quando ele cravou que Pelé seria Rei. E olhem que o menino, por causa da idade, não poderia nem mesmo ser chamado de príncipe regente do mundo do futebol. De quebra, profetizou que aos 17 anos ele não tremeria na Copa da Suécia.

A crônica A Realeza de Pelé faz parte do livro À Sombra das Chuteiras Imortais, organizado pelo jornalista e escritor Ruy Castro, autor da biografia deste incomparável cronista.

Depois do jogo América x Santos, seria um crime não fazer de Pelé o meu personagem da semana. Grande figura, que o meu confrade Albert Laurence chama de “O Domingos da Guia do ataque”.

Domingos, pai de Ademir da Guia, de quem poucos ouviram falar, foi um dos maiores jogadores do seu tempo; um zagueiro com estilo refinado e técnico, como já não se faz mais, pois nos dias de hoje se valoriza apenas a força física, principalmente no caso dos jogadores de defesa, como Domingos.

Nelson continua: Examino a ficha de Pelé e tomo um susto: dezessete anos! Há certas idades que são aberrantes, inverossímeis. Uma delas é a de Pelé. Eu, com mais de quarenta, custo a crer que alguém possa ter dezessete anos, jamais. Pois bem: – verdadeiro garoto, o meu personagem anda em campo com uma dessas autoridades irresistíveis e fatais. Dir-se-ia um rei, não sei se Lear, se imperador Jones, se etíope. Racialmente perfeito, do seu peito parecem pender mantos invisíveis. Em suma: – ponham-no em qualquer rancho e a sua majestade dinástica há de ofuscar toda a corte em derredor.

Até hoje, Edson Arantes do Nascimento chama ou clama por Pelé na terceira pessoa, comportamento que tem muito da realeza que o genial cronista enfatizava. O próprio jogador vê-se como um mito a ser idealizado e respeitado. De sua boca, percebemos um quê de admiração e mitificação na imagem que possui daquele que ele criou e tornou imortal.

O que nós chamamos de realeza é, acima de tudo, um estado de alma. E Pelé leva sobre os demais jogadores uma vantagem considerável: a de se sentir rei, da cabeça aos pés. Quando ele apanha a bola, e dribla um adversário, é como quem enxota, quem escorraça um plebeu ignaro e piolhento. E o meu personagem tem uma tal sensação de superioridade que não faz cerimônias. Já lhe perguntaram: – “Quem é o maior meia do mundo?” Ele respondeu, com a ênfase das certezas eternas: “Eu”. Insistiram: “Qual é o maior ponta do mundo?” E Pelé: “Eu”. Em outro qualquer, esse desplante faria rir ou sorrir. Mas o fabuloso craque põe no que diz uma tal carga de convicção, que ninguém reage e todos passam a admitir que ele seja, realmente, o maior de todas as posições. Nas pontas, nas meias e no centro, há de ser o mesmo, isto é, o incomparável Pelé.” Quem nunca pôde entender por que este jogador é considerado, à exceção dos argentinos, o maior de todos os tempos, agora, com estas palavras de Nelson, há de compreender a razão do simbolismo e da profundidade da definição.

“É preciso algo mais, ou seja, essa plenitude de confiança, de certeza, de otimismo, que faz de Pelé o craque imbatível. Quero crer que sua maior virtude é, justamente, a imodéstia absoluta. Põe-se por cima de tudo e de todos. E acaba intimidando a própria bola, que vem aos seus pés com uma lambida docilidade de cadelinha. Hoje, até uma cambaxirra sabe que Pelé é imprescindível na formação de qualquer escrete. Na Suécia, ele não tremerá de ninguém. Há de olhar os húngaros, os ingleses, os russos de alto a baixo. Não se inferiorizará diante de ninguém. E é dessa atitude viril e mesmo insolente de que precisamos.”

Aqui, Nelson descreve, ao seu modo, a importância dos aspectos emocionais para quem trabalha na presença e para um determinado tipo de público. Ter confiança é fundamental, porém mais importante ainda é saber conduzir o processo no comando da relação entre os jogadores e a torcida. Quem, além disso, possuiu um dom absurdo para jogar futebol, como Pelé foi agraciado, só poderia chegar aonde ele chegou. Que Maradona me desculpe, mas como Pelé outro jamais nascerá!

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2 comentários sobre “Palavra do Magrão

  1. Pingback: docilidade.net - Palavra do Magrão « Blog do Paulinho

  2. CONTRA A IMPUNIDADE

    Precisamos lembrar ao senhor Paulinho, dono do blog, que nós torcedores e trabalhadores que pagam impostos e suas contas em dia; nós que participamos de eleições e tentamos nos fazer representar da melhor maneira possivel, estamos INDIGNADOS com a demora referente ao processo de apuração e punição dos responsáveis pelo caso do gás na semi-final do campeonato paulista de 2008.
    Mesmo após o JORNAL LANCE ter divulgado que durante as escutas telefônicas no caso da máfia dos ingressos, foram encontradas/criadas provas ( gracações de conversas ) do envolvimento de torcedores e dirigentes da Sociedade Esportiva Palmeiras, estranhamente notamos “morosidade” no processo.
    Gentilmente solicitamos ao caro jornalista, que nos informe, cobre, investigue.
    Nós não queremos de forma alguma ter gente desta espécie vestidos de representantes mascarados de pessoas de bem em nosso meio.

    QUE SE INVESTIGUE, QUE JULGUEM E PRINCIPALMENTE QUE PUNAM OS RESPONSÁVEIS.

    NÃO A IMPUNIDADE !!!

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