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Esportista do ano

DA FOLHA DE SÃO PAULO

Por JUCA KFOURI

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No chamado país do futebol, o maior destaque de 2008 é de outro esporte, também com bola, mas de ouro

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QUINTANA É uma cidadezinha do centro-oeste do interior paulista, de pouco mais de °°°5.000 habitantes, na região de Marília, dessas difíceis de ver no mapa. Lá nasceu, dez anos depois da fundação da cidade, o nosso maior herói esportivo deste ano, José Roberto Guimarães, 54 anos.

Ele é o único técnico de vôlei na face da Terra com duas medalhas de ouro olímpicas de gêneros diferentes, uma com homens, outra com mulheres.

O único!

A primeira, histórica porque também a pioneira de esportes coletivos para o Brasil, ele a ganhou em 1992, em Barcelona, com um time de meninos que foi aos Jogos Olímpicos apenas para não fazer feio.

E voltou consagrado, invicto, além de fazer 3 a 0 na finalíssima diante da Holanda.

Ex-levantador dos bons, mas não do nível de um William, um Maurício ou um Ricardinho, Zé Roberto ao entrar para a história não mudou um centímetro em seu comportamento, como se a vitória não fosse dele. Até pelo futebol, sete anos depois, ele andou, homem forte do Corinthians que acabou bicampeão brasileiro em 1999 e primeiro campeão mundial da Fifa, em 2000.

Ao voltar para o vôlei e para sua vida de sempre, permaneceu na dele, perfil baixo, competência nas alturas, nível 10 de excelência.

Nunca foi explosivo como Bebeto de Freitas ou Bernardinho, outros dois treinadores do primeiríssimo nível do vôlei mundial, nem de tanto destaque como José Carlos Brunoro, outro que se deu bem também no futebol, no Palmeiras.

Mas Zé Roberto sofreu um baque equivalente ao cair do 30º andar de um prédio em construção ao ver seu time feminino derrotado na Olimpíada de Atenas, com o jogo ganho diante da Rússia, em 2004.

Queda para desanimar qualquer um, mesmo aqueles que têm brio, como ele.

Desanimar não desanimou, mas passou a viver todo um ciclo olímpico, penosos quatro anos, de luto, nas tocantes palavras dele mesmo, assim que o martírio acabou.

Sorria com a boca, mas os olhos não acompanhavam, como é característico em quem sofre a pior das desgraças, a perda de um filho.

Mudou um pouco seu jeito de ser, andou naturalmente meio amargo, embora jamais tenha conseguido ser inteiramente amargo.

Mas ruminava todos os dias ao acordar que precisava botar um fim àquele sofrimento, o que só seria possível, ao menos, com um pódio em Pequim. O fim dessa história ainda está vivo na retina de quem viu a maravilhosa seleção brasileira da capitã Fofão, de Mari (outra heroína que pagou as penas do inferno para provar que amarelo nela só o ouro chinês) e companhia bela, como Paula Pequeno, Sheilla etc.

Zé Roberto, se quisesse, teria muitas contas a ajustar com um bando de gente que o imaginou sem pulso, superado, incapaz de dizer as palavras certas no fatídico quarto set em que a Rússia virou quando perdia de 24 a 19. E não as ajustou não só por ser um verdadeiro vencedor mas porque, pasme, ele se achava mesmo o maior culpado.

Como é justo que se ache pelo ouro em Pequim. E também não acha. Mas nós achamos.

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