Sobre o futebol feminino
Por Mozart Maragno
Professor de Educação Física e
mestrando em Educação pela UFSC (Universidade Federal de Santa
Catarina)
Exílio ou clandestinidade?
Evidente que não são duas das opções mais agradáveis que uma pessoa
possa escolher. Assim como foi o dilema enfrentado por militantes que
reivindicavam um país mais justo durante a ditadura militar
tupiniquim, até a “abertura” em 1979, essa é, também, a situação das
valentes jogadoras de futebol feminino do Brasil (sem data pra acabar
ainda, infelizmente). Quem teve a “sorte” de poder se exibir
internacionalmente – com qualidade – consegue contratos para poderem
viver exclusivamente da modalidade, uma minoria; quem não obteve essa
“graça” acaba perambulando pelos campos e quadras nacionais, quando
são constantemente tentadas a abandonar o esporte. Relegadas ao 4º
plano por CBF e COB, que apresentam sua indiferença simpática quando
necessário (sobretudo em época de Mundial e Olimpíada), ainda têm de
conviver com o famigerado preconceito (será que nunca ninguém pensou
numa campanha institucional para tentar eliminar essa praga?).
Os grandes resultados internacionais – especialmente a prata em Atenas
– frente todas as dificuldades, são produto não mais do que uma
estrutura informal gerada pela massificação do futebol no Brasil, que
reflete também entre as meninas, além de “espasmos” de bons trabalhos,
como ocorreu com esse time medalhista olímpico. Falta lapidação,
formação específica de profissionais, treinamento qualificado, mais e
melhores competições, isto é, a estrutura formal, o outro lado da
moeda, que abrigaria as interessadas em jogar, os talentos.
Historicamente, a Federação Paulista tem apoiado algumas iniciativas
de organizar campeonatos e até mandou uma seleção estadual pra Queen
Peace Cup 2006, que contou com Dinarmarca, Canadá e EUA com equipes
completas, entre outras forças mundiais. Já a CBF, ao fornecer sua
estrutura na Granja Comary, não faz mais que a obrigação e, às vezes,
me força a pensar que mandar equipes femininas pra competições
internacionais se torna uma mera formalidade no intuito de evitar um
vexame pela possível ausência. Ao indicar, em determinado período,
Américo Faria como supervisor, vejo como chacota com quem acompanha a
modalidade. A não manutenção de Renê Simões, que organizou
razoavelmente a coisa em 2004, outro descalabro. Quem vê o discurso
farisaico sobre o futebol feminino por parte de alguns cartolas que
despacham na luxuosa sede da entidade na Barra da Tijuca, tende a ser
ludibriado, afinal “estamos dando todas as condições para as atletas”.
Se alguma delas esboçar uma postura crítica, é escanteada
imediatamente (como já aconteceu, inclusive).
Feitas as ressalvas, o desabafo, o Pan do Rio e o Mundial estão aí e
teremos, apesar de tudo, força máxima. As grandes jogadoras, de
diferentes gerações, estarão em campo:
Formiga, Tânia, Pretinha, Kátia Cilene (que foram a Atlanta 96) se
somam a Andréia, Rosana, Daniela Alves (estavam em Sidney 2000) que
encontram Marta, Cristiane, Renata Costa (Atenas 2004) chegando até a
espetacular guarda-metas pernambucana Bárbara que foi 3ª colocada no
Mundial sub-20 do ano passado. Jorge Barcellos, o técnico, vem fazendo
bons treinos e escala a equipe num ofensivo 3-5-2, usando Renata
Costa, que é volante de bom passe, como líbero. Mesmo sem Marta
(apenas a melhor do Mundo em 2006 pela FIFA) e Elaine, que jogam no
UMEA sueco e só serão liberadas depois de uma rodada de meio de semana
pelo Campeonato Nacional, a reposição tem qualidade pra sustentar o
nível e possivelmente golear a frágil seleção uruguaia na estréia, num
Engenhão cheirando a tinta. O Canadá deverá ser o grande adversário
brasileiro no Rio de Janeiro, mesmo considerando que a Argentina
aprontou (venceu o Brasil) no Sul-americano de Mar del Plata em 2006 e
os EUA, ainda que com a sub-20, nunca pode ser descartado. De qualquer
forma, a margem de erro das meninas é sempre mínima, pois precisam
vencer tudo, com esse pequeno apoio, para poderem aspirar um melhor
horizonte e alguma visibilidade midiática. Tarefa pra lá de hercúlea.
Entretanto, jamais ousem duvidar da força interior dessas guerreiras
quem vêm sofrendo anos a fio. Se a redemocratização do páis é um
processo em desenvolvimento, no futebol mal superamos a segregação de
gênero.
Provável equipe titular durante o Pan: Andréia, Aline (capitã), Renata
Costa (Elaine), Tânia Maria; Jatobá, Daniela Alves, Maycon (Marta),
Formiga, Rosana; Pretinha e Cristiane Rozeira
