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Palavra do Magrão

Finais

Por SÓCRATES

Em 1976, pegamos a estrada para enfrentar o poderoso São Paulo Futebol Clube em pleno Morumbi. Os companheiros já estavam por lá desde o dia anterior. Saí do Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto às 4 da tarde, aproximadamente. Acomodei-me ao lado de Pidão, motorista do clube colocado à disposição para me levar à capital, e me pus a pensar enquanto tentava inutilmente fechar os olhos para dormir um pouco. A roupa branca manchada de sangue em uma das pernas insistia em me lembrar do plantão na noite anterior e do trabalho que me dera realizar um determinado procedimento ambulatorial. O cansaço, contudo, não se comparava à ansiedade daquela final de turno. Fizéramos uma campanha excepcional, com uma única derrota para a Ferroviária, em Araraquara. Logo mais seria a hora da decisão. A hora da “onça beber água”.

Chegamos pouco antes das 8 da noite e nos dirigimos diretamente ao vestiário. A tensão no rosto de todos era flagrante. Por não ter vivido de perto ou me preocupado tanto nas várias horas que antecederam o confronto, pude descontrair um pouco o ambiente. Cheguei brincando com todo mundo, levantando o moral, valorizando a confiança que eventualmente pudesse estar sendo questionada. Senti uma resposta altamente positiva e tive a certeza de que as nossas possibilidades eram grandes.

O jogo foi equilibrado no início. Chegamos a sofrer certa pressão do Tricolor. Com o tempo, crescemos. Perdemos uma série de oportunidades. Fiz um gol, anulado pelo árbitro. Três bolas na trave. Finalmente, o empate que nos favorecia. Foi uma festa só. Ribeirão parou para nos receber, com direito a carro de bombeiro e desfile acompanhados da torcida. Voltei à faculdade com a sensação de que aquela emoção, tão rara, compensara todas as dificuldades que havia acrescentado ao meu dia-a-dia, quando resolvi associar as duas coisas. Muitas ainda haveria de passar.

Início de 1980. Quase quatro anos após, eu defendia outras cores. Morando na capital, minha vida mudara completamente. Já não era só o Magrão de Ribeirão. Aquele estudante de medicina franzino e abusado ficara para trás. Tinha assumido uma imensa responsabilidade. Vestia a camisa do mais importante clube do estado em que fui criado. Sua imensa e fiel torcida participava de todos os meus momentos.

Chegara à seleção nacional no ano anterior, mas aquela emoção foi infinitamente inferior às vividas nas três partidas contra a Ponte Preta. No último jogo, em virtude da força da nossa torcida e apesar da qualidade da equipe campineira, não tinha dúvida do título. Dominamos toda a partida. No momento mais importante, em um cruzamento de Piter, Romeu evitando a saída da bola pela linha de fundo e tocando para trás em direção ao meu pé esquerdo, chutei com raiva, atingindo as redes adversárias. Extraordinária explosão do estádio lotado. O mesmo Morumbi. O mesmo sorriso. A mesma sensação. Mais um título.

Lembrei-me dessas ocasiões especiais, pois imagino que a sensação de disputar uma final olímpica seja semelhante. No esporte, a decisão é um dia de festa, muita emoção, expectativa extrema, mobilização popular, nervosismo, encontros e desencontros, alegrias e tristezas, sorrisos e lágrimas, um nó no peito, sonhos e esperanças, preocupação e euforia, solidariedade e lembranças, afagos e desafogos, encantamento e sofreguidão.

Dia de ginásio ou estádio cheio, na expectativa de se conhecer o campeão, não importa em que condições: vale gol de canela, sem querer, de juiz roubando, ou apenas gol, ponto ou cesta que encarnam a visão deste mundo bem particular e que é muito verdadeira. Se não podem mudar a vida de todos, ao menos nos dão o gostinho de uma vitória, única que seja e com certeza bem aproveitada e valorizada. Que em cada cortada ou arremesso se perceba um pouco da vontade, da fibra de cada torcedor, que se sacrifica como um animal de carga durante toda uma existência para usufruir por poucos e breves momentos o êxtase de ver seu time lá em cima, carregando a taça como se fosse a verdade estampada naquele pedaço de metal estilizado. Que cada segundo deste espetáculo seja uma eternidade, para que um se sinta protagonista virtual representado por aqueles que evoluem as fantasias persistentemente presentes.

Pois é, nesta semana me senti exatamente assim, torcendo e sofrendo com os nossos atletas, já que é notório o quanto de suor cada um perdeu para chegar a uma Olimpíada. Algo jamais em vão.

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