Da Carta Capital
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Luiz Gonzaga Belluzzo
Não é a primeira vez que invocam a “mão de Deus” para explicar o desfecho de uma partida de futebol. Atribuir a Deus o uso das mãos para influir no resultado das ações humanas é temeridade que beira à blasfêmia. Veja o caro leitor o que acontece, nesse momento, com a mão- invisível. Adam Smith a imaginou à semelhança da Providência, encarregada de guiar o egoísmo dos homens na direção do melhor resultado possível para a sociedade.
A crise dos mercados financeiros parece indicar que desgraçadamente a Providência Divina não se imiscui na reprodução da vida material. Tudo indica que tampouco pretenda se intrometer no jogo da bola, esporte que os deuses dos estádios estão autorizados a praticar com os pés e com a cabeça.
Em 1971, Armando Marques, na “mão grande” ou na “mão boba”, apitou “mão-na-bola” quando Leivinha cabeceou a dita cuja para as redes do goleiro Sérgio. Na ocasião, o governador Laudo Natel, sentado no banco de reservas do São Paulo, comemorou discretamente, como cabe aos cavalheiros de Piratininga.
Na partida de ontem Adriano impulsionou com a mão a bola que sua cabeça não iria alcançar. Nas explicações de intervalo, o assim chamado Imperador, na esteira de Maradona, usou as reservas de cinismo que a sociedade contemporânea coloca a disposição dos seus súditos: o negócio é vencer ou ganhar a qualquer custo.
Também no intervalo entram em cena os comediantes, pródigos em exegeses que ridicularizam o ridículo, sobretudo quando se trata de explicar o óbvio. Falo do árbitro Paulo “não sei das quantas” e do inefável coronel Marinho. Aborrecido com o gol de mão, passei a me divertir à grande com as explicações dos dois “especialistas” em arbitragem.
Em certas derrotas, ao invés da amargura, é preciso preservar o humor. Ontem não faltou matéria-prima. Fossem os bons tempos da Atlântida, a dupla de pândegos seria convidada para contracenar com Oscarito e Grande Otelo, com chances de suplantar os dois atores nas impagáveis cenas de non-sense. Pensei melhor: contemporâneos, estariam, na verdade, aptos a pedir uma vaga nos Trapalhões. Paulo “não sei das quantas” é um PhD em trapalhadas e o coronel não faria feio como roteirista.
Não vou, aqui, execrar a pobre bandeirinha, figura patética. Ouvi insinuações do tipo “é isso que dá escalar mulher num jogo decisivo”. Bobagem machista. No jogo do returno do brasileiro de 2007, na partida contra o tricolor, o bandeira anulou o gol do Palmeiras. Até prova em contrário, tratava-se de elemento do sexo masculino, nem por isso menos inabilitado para a função.
A cidadã que ontem tentava auxiliar sua senhoria exagerou: marcou impedimento em escanteio. E mais, em rebote de Rogério Ceni, a já transtornada senhora assinalou impedimento de Diego Souza, em posição legal na hora do chute de Valdívia. Ninguém reclamou nem falou do lance. Assim como outras críticas, a crítica de arbitragem agoniza no país do futebol.
Diante das trapalhadas do chamado trio de arbitragem, sucumbi ao dúbio sentimento que a perversidade da alma humana reserva para as relações com néscios ou incapazes de todo o gênero, o conluio entre o menosprezo e a piedade. No caso, aplica-se a conhecida história do sujeito que foi mordido por um cachorro. De nada adianta brigar com o cão mordedor. Qualquer pessoa sensata deve interpelar o dono do bicho.
É verdade que, durante a Revolução Francesa, um tribunal de citoyens condenou um cachorro à morte por cumplicidade com a contra-revolução. Admiráveis e incontornáveis antepassados, os gregos julgavam e condenavam animais e seres inanimados, como pedras e similares, acusados de causar danos aos humanos. Para alívio de muitos, esses tempos passaram.
Mais do que as decisões incompetentes de Paulo “não sei das quantas” e de sua pobre auxiliar, as explicações do Diretor de Árbitros causaram danos à Federação Paulista de Futebol. O cara marcou o gol com a mão esticada, aumentando o volume do corpo.
Isso não é permitido pela regra. Intencionalidade, no caso, é irrelevante. Coronel, levante o braço e abane as mãos num gesto de adeus.
Demita-se. Caia fora.