Palavra do Magrão

Da Carta Capital


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Despedidas




por Sócrates


 


Festas de fim de ano me provocam certa melancolia. Elas sempre me trazem lembranças de alguém distante. Seja do meu pai, seja dos colegas no Corinthians

 


Sócrates


Não gosto muito deste período do ano. Adoro festas, mas essas me provocam certa melancolia por culpa da distância em que me encontro de várias pessoas das quais me separei em algum momento da vida. Uma figura em particular me faz uma falta danada: meu pai. O velho representou bem mais do que uma referência paterna para mim. Foi, isto sim, um exemplo de vida que tento seguir, ainda que tenha consciência de que seja praticamente impossível passar pelas mesmas experiências, até porque ele me ofereceu algumas condições incomparáveis às suas.


Meu velho não pôde completar, como boa parte dos brasileiros, o segundo ano do curso fundamental (o antigo primário), mas conquistou um bem que serviria como ponto de partida em todas as iniciativas que assumiu na sua existência: aprendeu a ler. Com essa riqueza ele procurou, de forma maníaca até, ter acesso a toda forma de conhecimento. E conseguiu! Através de muita força de vontade e persistência incomum ele pôde crescer com suas próprias pernas e oferecer aos filhos o que não lhe foi possível. Aquele sebo ambulante transformou seu destino e ensinou-nos que qualquer coisa é possível desde que tenhamos ou criemos uma oportunidade. Tenho uma saudade danada da sua maneira de ver a vida.


Outras despedidas não foram tão doídas como essa, porém estão cercadas de sentimentalismos que vez ou outra nos tocam. Sempre por culpa de pessoas que, de uma forma ou de outra, se tornaram importantes ou mesmo imprescindíveis em determinados momentos da estrada. Como, por exemplo, as duas despedidas que tive no Corinthians. A primeira foi em Juazeiro do Norte (CE). Era meu último jogo no Timão em terras nacionais. Um amistoso contra o Vasco da Gama havia sido marcado para comemorar, se não me engano, o aniversário daquela cidade do Cariri, de que ouvia falar muito pelas histórias de meu pai, que nascera também no Ceará.


Os dois times viajaram juntos em um vôo fretado. Durante todo o trajeto o comportamento das duas equipes foi de uma diferença absurda. Enquanto os vascaínos se mantinham sisudos e tristes, nós fazíamos uma farra fenomenal e compatível com o clima festeiro, exigência para a nossa despedida. A festa continuou no hotel em que todos se hospedaram. Os cariocas foram dormir (?) cedo, mas nós nos acomodamos na beira da piscina e regados a muita cerveja e música nos embalamos e os incomodamos até o amanhecer.


No dia seguinte, em campo, nos enfrentamos lá pelas 3 horas de uma tarde quente o suficiente para suar a camisa mesmo sem estar em movimento. Com 30 minutos de jogo nós já vencíamos por 3 a 0, placar que se manteve até o fim da peleja. Eles nos olhavam assustados com tão eficiente desempenho, pois acreditavam que não suportaríamos o calor, dada a farra da noite anterior. Mas quem disse que ela nos prejudicaria? Ao contrário: deu-nos mais felicidade para jogar e derrotar aquele ou qualquer outro adversário.


A despedida seguinte aconteceu em Kingston, na Jamaica, minha despedida internacional pelo Corinthians. Ainda no Aeroporto de Congonhas ocorreu um conflito imprevisto, pois o treinador não queria que o Casagrande viajasse com a delegação. Batemos o pé e quem deixou de embarcar foi o treinador, já que o “Casão” nada tinha feito para merecer ser alijado da viagem, ainda mais na minha última partida pelo time. Ganhamos também, mas o que mais me lembro daqueles dias na capital jamaicana é da nossa intérprete tentando nos entender ou, pelo menos, acompanhar. Ela que representava uma salada de frutas idiomática: era uma alemã falando em espanhol e em inglês para um bando de brasileiros que se recusava a falar outra língua que não a nossa, o belo e bom português do Brasil. Passou maus bocados com aquela turma, mas no fim deu tudo certo e pudemos nos entender a ponto de ter nos agradecido por aqueles, segundo ela, dias mais alegres de sua vida.


Outra despedida marcante foi quando eu deixava a Itália. Os amigos que lá fiz, fizeram questão de acompanhar a mim e à minha família até o aeroporto de Roma. Alugaram um ônibus, reuniram todos os que conviveram comigo durante aquele ano em clima meio de festa, meio de tristeza e nos levaram à Fiumicino. Um pequeno gesto que muito diz do que conquistamos no berço da Renascença.


Enfim, lembranças, umas más outras boas, que nem sempre sabemos administrar convenientemente, principalmente aquelas que dizem respeito à família. É por isso que não gosto muito dessas festas de fim de ano. Elas sempre nos lembram de alguém distante.

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