Palavra do Magrão

Da Carta Capital


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O lado bom da crise




por Sócrates


 


Como em 1981, o Corinthians está em frangalhos. Por que não democratizar todo o processo, atraindo as diversas correntes, incluindo sua fiel torcida?



Sócrates



Naquele fim de 1981, nosso time encontrava-se em frangalhos. Havíamos sido eliminados do Campeonato Brasileiro e, pior, deveríamos disputar uma espécie de Segunda Divisão – que na verdade mais parecia um qualificatório para as fases decisivas – no ano seguinte. Politicamente, também havia uma grande disputa de poder nos escalões superiores, já que o presidente, Waldemar Pires, se sentia pressionado por uma eminência parda chamada Vicente Matheus, que o havia indicado para disputar o pleito anterior com a clara pretensão de usá-lo como uma marionete. Waldemar, no entanto, naquele momento se rebelava e tentava impor-se como presidente de fato contra o feudalismo do antigo mandatário.


Nessa queda-de-braço quem saiu ganhando foi o Corinthians como instituição, pois uma grande mudança estava por acontecer, com a substituição de alguns dirigentes e a implantação de uma nova filosofia de gestão. O primeiro passo foi abafar o poder de Matheus junto ao conselho deliberativo do clube e modernizar o departamento de futebol com a chegada de Adilson Monteiro Alves, filho de outro antigo cardeal do clube, que nada entendia do assunto, mas que estava disposto a ouvir e a valorizar a opinião de quem realmente conhece o ambiente, que, como sempre, são os jogadores.


Nascia ali o embrião da chamada democracia corintiana, que não só transformou radicalmente as relações de trabalho e de poder entre os atletas e a administração do clube como conseguiu reunir sob sua bandeira uma gama enorme de gente do bem e interessada em emprestar a credibilidade e a capacidade para colaborar com a implantação daquele regime revolucionário. Idéias avante do seu tempo só podem subsistir se houver uma grande mobilização de cabeças brilhantes absolutamente compromissadas com determinada causa.


Logo após as primeiras mudanças, viajamos para uma excursão ao México e América Central. Foi quando começamos a desenvolver o método de relacionamento para todos os integrantes daquela microssociedade que tinha como ponto de partida o respeito ao ser humano, o estímulo à participação nas decisões coletivas e a paridade de valor nos votos de cada cidadão. O roupeiro, o massagista e os demais praticantes de outras atividades menos valorizadas socialmente possuíam o mesmo poder nas decisões que o melhor jogador da equipe ou o diretor de futebol do clube. Foi nesse período que conheci Paulo César Caju, uma das figuras mais importantes da história do nosso futebol, por ter sido um atleta mítico, um contestador e um exemplo de quem e como são nossos jogadores, com suas fragilidades expostas nas dificuldades em se inserir em uma sociedade exigente, paternalista e racista.


Ele e Afonsinho, que lutou como um leão por sua liberdade e independência, afrontando o reacionarismo presente no esporte nacional, são referências de seres que jamais aceitam imposições sem que elas ao menos tenham passado pelo crivo de uma profunda reflexão. Algo que naquele momento da história corintiana acabou por se tornar uma atitude filosófica coletiva e cotidiana.


Hoje, o Corinthians passa por um momento muito parecido. O time é fraco e está fazendo de tudo para evitar o rebaixamento para a Segunda Divisão. Apesar de ainda não percebermos nenhum movimento em direção a uma prática mais moderna no que se refere aos profissionais de campo, é provável que, independentemente do que acontecer neste ano, alguma mudança deva ocorrer. A crise de gestão que assolou o clube nas últimas décadas e que se tornou uma tragédia a partir do acordo com a MSI acabou por derrubar seus administradores e uma nova equipe assumiu com o compromisso de modificar radicalmente a forma de gerir o clube. Para que isso aconteça, no entanto, é necessário que a nação corintiana exija mais transparência dos que estão à testa da instituição para evitar que tenhamos uma reprodução do que vimos nesses últimos anos. E por que não democratizar todo o processo, atraindo para a nova gestão representantes das diversas correntes que fizeram desse clube um dos maiores do País, incluindo aí a sua fiel torcida?


Esta, sim, seria uma ação que produziria resultados imediatos, transformando o Corinthians, mais uma vez, em pólo gerador de modernidade, além de resolver seus problemas mais prementes. É difícil acreditar que algo assim ocorra novamente no curto prazo, mas um dia, sem dúvida, o esporte brasileiro se renderá a práticas mais contemporâneas de gestão empresarial e relacionamento humano

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