Palavra do Magrão

Da Carta Capital


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Fragilidades




por Sócrates


 


A linha editorial das emissoras cada vez menos valoriza o improviso e a emoção. Busca-se a perfeição, mas perde-se o principal e a razão de tudo, o ser humano em toda a sua plenitude



Sócrates




A fama ou popularidade é geralmente provocada pelo fato de se trabalhar com ou para o grande público, e também pelo freqüente assédio a que esses indivíduos estão expostos pela mídia. Sempre, obviamente, quando esses artistas se encontram em posição de destaque. Lembro da minha primeira aparição em um programa televisivo de cadeia nacional. Era meu ano de estréia no futebol profissional e ainda cursava o terceiro ano de Medicina na USP Ribeirão. Recebera um convite para participar do programa do Airton Rodrigues, chamado Clube dos Artistas, e tive de me deslocar até a capital paulista em uma sexta-feira logo após uma aula que não poderia perder e, portanto, ainda estava todo de branco, depois de um dia inteiro no Hospital das Clínicas. Chegamos aos estúdios dos Diários Associados quase em cima da hora, mas a tempo de entrar no ar. O cenário era o de um imenso bar que corria rente a uma das faces do estúdio, ziguezagueando como um ofídio que, na minha visão de iniciante, parecia extremamente perigoso.


Felizmente, o apresentador começou a entrevistar os presentes pelo lado oposto ao que eu me encontrava e assim pude gradativamente controlar a ansiedade e passei a aproveitar a ocasião, observando e analisando cada um dos demais convidados, pois todos eram muito conhecidos e a minha curiosidade em relação às suas personalidades era imensa. Finalmente, ia chegando a minha vez e o nervosismo retornou em toda a sua intensidade. As mãos umedeceram, a palpitação era perceptível e uma secura na garganta se instalou. Uma sensação parecida com um daqueles pesadelos que nos fazem acordar encharcados de suor. Talvez percebendo o meu estado, ele se aproximou com cuidado e carinhosamente me apresentou ao grande público. Os aplausos da platéia só me fizeram ficar ainda mais agitado. Aguardei a primeira pergunta como quem faz o vestibular ou está prestes a enfrentar a sonhada primeira relação sexual, mas ela se revelou ingênua e simples: “Sócrates, você é de onde?”


 


A resposta saiu suave e calma, como se nada daquilo que havia sentido até ali tivesse existido. Sou paraense, disse. Já a próxima questão caiu como uma bomba no meu colo: “Você é de Natal ou do interior?” Fiquei sem ação. O ato falho do entrevistador me colocara em uma situação difícil de ser solucionada para um estreante como eu. Se respondesse com clareza total, estaria sendo um tanto agressivo para com quem me convidara, então tive de, o mais rapidamente possível, encontrar uma resposta que fosse correta e que não constrangesse o apresentador. Felizmente, achei a solução respondendo que “sou de Belém mesmo”. Que alívio! Depois disso, nunca mais me assustei em oportunidades como essa, mas isso não quer dizer que não tenha enfrentado dificuldades em outras ocasiões.


 


Como, por exemplo, quando fui gravar um programa da TV Cultura, que se chamava Vox Populi, alguns anos mais tarde. Normalmente, nos acostumamos a debater com um ou mais jornalistas tipo olho no olho, o que sempre cria uma interação que facilita o diálogo. Naquele programa, no entanto, as perguntas eram gravadas e apresentadas em vídeo sem nenhum contato com o autor das questões. Nós ficávamos em um estúdio gelado acompanhados apenas pelos câmeras, isolados como em uma prisão e tendo de dialogar com aquelas lentes inumanas que se fixavam em nossos rostos. 


Isto, a princípio, criou uma imensa dificuldade, pois eu não estava habituado a conversar sem a presença de um ser de carne e osso e com opiniões preconcebidas. Como os entrevistadores eram figuras do povo escolhidas a esmo pela produção e em situações as mais variadas, as perguntas não possuíam um enredo ou um único sentido, o que necessariamente nos provocava reações também múltiplas, de acordo com o conteúdo de cada uma delas. Foi um sufoco, já que o tempo todo parecia que estávamos em uma linha de fogo de um conflito militar. Mas também um grande aprendizado, pois ouvir questões provenientes de tanta gente diferente é uma rara oportunidade de descobrir o ser humano em muitas de suas nuances e personalidades.


Infelizmente, vemos hoje que a linha editorial das nossas emissoras cada vez menos valoriza iniciativas em que o improviso e a emoção sejam preceitos fundamentais. Busca-se a perfeição, mas perde-se o principal e a razão de tudo, que é o ser humano em toda a plenitude, com medos e fragilidades expostos junto à sua inteligência e conhecimento.

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