Palavra do Magrão
Da Carta Capital
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O fascínio da bola
por Sócrates
O formato esférico extrapola a realidade física para entrar no imaginário de cada um. Foi assim que vi Fidel, meu filho de 2 anos, entreter e envolver os convidados de uma festinha com a bolinha colorida nos pés
Sócrates
Sol é redondo ou, quase. A Lua, a mesma coisa. Todos os planetas têm a mesma configuração. Saturno, inclusive, possui anéis que o abraçam de tal forma que acabam por causar uma sensação de carinho indescritível. Talvez por isso, além de uma convicção inabalável, Galileu teve coragem de enfrentar a fúria da Igreja e se expôs à execração pública que, posteriormente, se mostrou sem consistência científica.
O Sol nos aquece e nos ilumina, o que, convenhamos, nos deixa mais flexíveis e humanos. Não por outro motivo os povos chamados de mediterrâneos pelos europeus preconceituosos ou, como no nosso caso, os que vivem em ambientes quentes o suficiente para esquecer que existe o inverno ou o frio, são acolhedores e alegres.
É um comportamento contrário dos que convivem com a agressividade da falta de luz natural em grande parte do ano. O luar, por outro lado, ilumina os poetas e produz o germinar do amor que nos leva a outros mundos menos factíveis, mas absolutamente indispensáveis para quem sonha com a felicidade.
Essas esferas extrapolam a sua realidade física para entrar no imaginário de cada um de nós por culpa de várias condições que muitos não conseguem entender. Um pouco de imaginação não custa nada para que se possa colocar algum brilho em existências nem sempre compatíveis com as expectativas que cada um cria para si.
Pois é, temos aqui um formato que mexe com as nossas sensações e que muitas vezes define comportamentos sociais incomuns. A bola tem a mesma configuração. Mas, na verdade, a bola que nos acompanha no dia-a-dia e que representa um determinado tipo de esporte do qual nos apaixonamos não é um mero objeto.
É um símbolo. Um símbolo que provoca união, sociabilização e prazer, e que pode produzir profundas transformações na qualidade das relações humanas. Para dar um exemplo, outro dia fui a uma festa de aniversário e levei Fidel Brasileiro, meu filhote de 2 anos.
O guri gosta de futebol como poucos. Passa o dia a me procurar para “jogá futibol” como ele se expressa em suas iniciais e difíceis incursões na língua pátria. Pois é, a bolinha colorida que é paixão do pequeno se tornou a sensação da festa.
E olhem que ele tem uma intimidade com a pelota que muitas vezes me fascina. E não é exagero de pai bobo, não. Acho até que esta molecada de hoje está precoce demais. O menino já tem fundamentos muito melhores que alguns dos atletas profissionais que atualmente jogam no Brasil.
Sabe matar uma bola, controla os passos corretamente para acertála em cheio e dirige o chute quase sempre no sentido correto. Isso sem falar que usa os pés para tirá-la debaixo dos móveis quando o normal seria se abaixar para pegá-la com as mãos. Mas, voltando à festa, quase todos os que lá estavam de uma forma ou de outra interagiram com Fidel e com sua bola colorida.
É claro que a sua simpatia colaborou para a aproximação das pessoas, porém, o que mais me chamou a atenção foi que sempre alguém estava envolvido com a bola. Crianças, adolescentes e até adultos se revezavam no contato com a pequena esfera de couro que em nenhum momento discriminou quem quer que seja – a maior vocação.
Talvez essa seja a qualidade mais transparente e que acaba por envolver a todos. A festa, regada a muita bebida e uma banda musical formada por jovens talentos, rendeu-se aos encantos do corre-corre daquela bola quase angelical que levava todos a se divertirem com naturalidade e um sorriso nos lábios.
Depois de muita farra, Fidel rendeu-se ao cansaço e tivemos de levá-lo para casa dormir. A bola, no entanto, obrigatoriamente permaneceu. Sua presença se tornara imprescindível e decidimos deixá-la para deleite dos que a utilizavam em seus jogos e brincadeiras.
Mais tarde, relaxando da longa tarde, tentei entender as razões para tanta afinidade. Infelizmente, não encontrei explicações convincentes. Gostaria de encontrar algum cientista que tenha estudado tal fenômeno e que pudesse me mostrar o conteúdo de toda esta familiaridade que temos com a bola. Seja ela de futebol, basquete, vôlei ou outra qualquer.
O encanto que ela provoca é de estarrecer e o domínio que exerce sobre nossas vontades sobrepuja qualquer outro concorrente. É fascinante quando nos deparamos com essas dúvidas sobre algo realmente concreto e incontestável. Talvez o simples fato de ela se parecer com a Terra que nos abriga e oferece, ainda, condições de nos manter vivos, seja o mote que nos aproxima daquilo que chamamos familiarmente de bola.

