Há modos e modos

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Há modos e modos




Existem técnicos de futebol de todo tipo. Supersticioso, matemático, performático… Mas antigamente eles eram bem mais simples e menos arrogantes que os de hoje em dia



Sócrates



 


Eu já vi de tudo no meio esportivo. Inclusive algumas práticas bastante exóticas promovidas pelos treinadores. Logo nos meus primeiros dias de profissionalismo me deparei com uma situação inusitada e um pouco assustadora para os iniciantes e incrédulos. Talvez em razão do excesso de superstição que viceja nesse ambiente, o treinador da época fazia regularmente um ritual na antevéspera das partidas. Por volta das 8 horas da noite, ele reunia todos os jogadores no vestiário para participar de uma sessão espírita com a presença de uma médium de sua confiança. Orações eram feitas e muitas vezes alguns dos nossos entravam em transe. Foi o que aconteceu com o Geraldão, centro-avante que anos depois também jogou comigo no Corinthians, que em uma dessas oportunidades deixou a sua habitual postura discreta e passou a falar coisas ininteligíveis e a dançar como se fosse um indígena. Descobriu-se ali que ele possuía a capacidade de se comunicar com o ambiente espiritual. Como eu era absolutamente cético quanto a essa realidade, era difícil entender o que ocorria ali. De qualquer forma, a maioria dos companheiros se sentia bem e confortável com aquele culto religioso. Dava-lhes calma e tranqüilidade, passíveis de ser confirmadas por suas expressões faciais.



Logo após, oferecia-se um banho com uma solução de cheiro esquisito, cuja fórmula envolvia sal grosso, arruda e muitas outras ervas que jamais consegui reconhecer. Hoje, conheço bem a força desses banhos, mas naquele momento tudo aquilo era muito estranho e eventualmente desagradável. Dei um jeito de me afastar e nunca mais participei daqueles encontros no estádio. Só muito tempo depois é que fui me aproximar do espiritismo. O técnico que veio a seguir também tinha suas manias. Havia plantado há alguns anos um pé de arruda na entrada do vestiário e cuidava da planta com tanto esmero que quem dela se aproximasse para pegar um galho que fosse era repreendido. Todos os dias a planta era aguada por largo tempo e com muito carinho, como uma filha querida. E em todos os jogos do time ele portava na orelha uma folha para que os bons espíritos protegessem todos da equipe.



Teve outro técnico, então, que via o futebol como um problema matemático que podia ser resolvido, bastavam atenção e capacidade de solução. Uma de suas mais sofisticadas opções de treinamento era realizada sem a presença da bola, como se a especificidade fosse uma aberração dos cientistas esportivos. Um treino tático sem bola só podia dar em confusão. Não é que certa vez, em um desses momentos de genialidade do treinador, havia em campo um garoto fazendo testes para tentar uma possível contratação? Ele era um defensor daqueles bem fortes e era alto o suficiente para meter medo em quem quer que seja, além de ter uma cara de mau de dar inveja a qualquer bandido de cinema. Ele foi colocado na lateral esquerda daquele que seria o time reserva. Na primeira ação exigida pelo técnico deveríamos lançar, ficticiamente, é claro, a bola invisível para o ponta-direita para que este cruzasse para a área. Surrealista demais, não é? Mas era assim que ele queria que a equipe treinasse.



Quando o ponta arrancou em direção à linha de fundo e ia ultrapassando o garoto, este resolveu marcá-lo mesmo sem a bola e lhe deu um tremendo carrinho, jogando-o na pista de atletismo. A expressão de susto que o jovem fez ao perceber a besteira que havia cometido foi para nunca mais esquecer, além, é claro, a cara de espanto do nosso treinador, que parecia não acreditar que aquilo havia ocorrido. Depois dessa, se não me engano, ele nunca mais inventou de realizar o tal do treinamento tático sem bola. Também, não adiantava nada mesmo. Somente ele para acreditar em suas invencionices.



É claro que nem todos foram assim tão performáticos, mas nessa classe encontramos todo tipo de gente. Antigamente, e não é por saudosismo que digo isso, os técnicos de futebol eram bem mais simples e menos arrogantes que os de hoje em dia. Vestiam-se de forma esportiva ou social, não querendo em hipótese nenhuma chamar atenção, já que os jogadores é que sempre foram os artistas. Preocupavam-se unicamente com o seu trabalho, sem tentar interferir em outras áreas do clube. Hoje, não. Usam roupas de grife, fazem as unhas, desfilam de terno e gravata como um executivo, têm salários faraônicos e, pasmem, muitas vezes ainda ganham uma comissão na compra dos jogadores por eles indicados. Não é uma maravilha?

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