Destruição do Corinthians segue em ritmo acelerado

Ex-vice de Augusto Melo, afastado após tornado réu sob acusação de surrupiar dinheiro do clube, Osmar Stabile assumiu interinamente a presidência do Corinthians em 26 de maio de 2025.
Passados 16 meses, os números são desastrosos.
O balancete de 31 de maio de 2025, apenas cinco dias depois de sua posse, mostrava que o Corinthians possuía R$ 856,7 milhões em ativos circulantes para enfrentar R$ 1,483 bilhão de obrigações de curto prazo.
O buraco de capital de giro era, portanto, de aproximadamente R$ 627 milhões.
Havia apenas R$ 29,3 milhões registrados como disponibilidades, enquanto fornecedores somavam R$ 393,7 milhões; empréstimos e financiamentos, R$ 244,7 milhões; direitos de imagem a pagar, R$ 123,7 milhões; e obrigações e encargos sociais, R$ 269,9 milhões.
O patrimônio líquido já era negativo em R$ 438,4 milhões.
Até maio, o déficit acumulado de 2025 era de R$ 12,5 milhões.
Um mês depois, no fechamento do primeiro semestre — período ainda esmagadoramente pertencente à gestão Augusto Melo —, o déficit estava em R$ 60,2 milhões e a dívida total, incluída a Arena, alcançava R$ 2,623 bilhões.
As despesas haviam estourado o orçamento: R$ 424,8 milhões contra R$ 329,3 milhões previstos.
Somente os gastos com pessoal chegaram a R$ 298,6 milhões, R$ 79,4 milhões acima do planejado.
Stabile recebeu um Corinthians devastado.
O problema é que piorou depois.
O clube encerrou 2025 com déficit de R$ 143,4 milhões e dívida bruta de R$ 2,723 bilhões.
Há, porém, uma malandragem relevante.
A administração contabilizou nas contas de 2025 os efeitos da renegociação tributária com a PGFN, embora o acordo somente tenha sido formalmente assinado em 2026.
Isso produziu redução contábil de R$ 217,4 milhões na dívida apresentada.
A auditoria independente fez ressalva justamente sobre o procedimento e afirmou que, sem esse tratamento, passivos tributários estariam subavaliados, enquanto patrimônio e resultado estariam superavaliados.
Além disso, a própria gestão identificou R$ 205,5 milhões em prejuízos pertencentes a exercícios anteriores e os lançou diretamente contra o patrimônio líquido.
O Corinthians terminou 2025 com patrimônio líquido negativo de R$ 774,2 milhões e prejuízos acumulados de R$ 1,244 bilhão.
Em 2026, não existia mais a possibilidade de responsabilizar a gestão anterior pelos resultados correntes.
E eles são ainda piores.
O primeiro semestre terminou com déficit de R$ 246 milhões.
O orçamento de Stabile previa prejuízo de R$ 138 milhões.
Ou seja: o rombo ficou R$ 108 milhões pior do que o próprio presidente havia planejado — 78,2% acima da previsão.
Julho mostrou que junho estava longe de representar o fundo do poço.
No balancete encerrado em 31 de julho de 2026, o déficit acumulado saltou para R$ 278,7 milhões.
Em apenas um mês, mais R$ 32,6 milhões de prejuízo foram adicionados às contas.
Para os sete primeiros meses do ano, o orçamento previa déficit de R$ 77,9 milhões.
O resultado efetivo foi, portanto, R$ 200,8 milhões pior do que o planejado.
Isso significa que o prejuízo ficou cerca de 258% acima da previsão orçamentária para o período.
E não foi por falta de arrecadação.
A receita operacional bruta chegou a R$ 472 milhões, enquanto o orçamento previa aproximadamente R$ 403 milhões.
A receita operacional líquida atingiu R$ 448,8 milhões, R$ 75,6 milhões acima dos R$ 373,2 milhões projetados.
Ou seja: entrou mais dinheiro do que Stabile esperava.
Mesmo assim, o Corinthians conseguiu produzir quase R$ 279 milhões de prejuízo.
Uma das razões está nos gastos com pessoal.
Até julho, eles atingiram R$ 327,4 milhões, contra R$ 284,9 milhões previstos — excesso de R$ 42,5 milhões.
Há também R$ 6,1 milhões em impostos decorrentes da operação cambial relacionada ao pagamento da dívida com o Santos Laguna pela contratação de Félix Torres e R$ 16,3 milhões vinculados a contingências e revisões contábeis.
Mas existe um problema estrutural muito maior.
As despesas financeiras — juros e demais custos produzidos pelo endividamento — já chegaram a R$ 171 milhões em sete meses.
O orçamento previa R$ 133,7 milhões.
São R$ 37,3 milhões a mais apenas em despesas financeiras.
É a dívida alimentando a própria dívida.
Há ainda o fracasso no planejamento com vendas de jogadores.
O orçamento previa R$ 150 milhões líquidos com negociação de atletas até julho.
O Corinthians registrou apenas R$ 3,2 milhões.
A explicação apresentada pela diretoria é a de que decidiu postergar negociações para preservar o desempenho esportivo na Libertadores e buscar posterior valorização dos jogadores.
Ocorreu exatamente o contrário.
O estrago aparece também no patrimônio.
Em dezembro de 2025, o patrimônio líquido do Corinthians era negativo em R$ 774,2 milhões.
Sete meses depois, chegou a impressionantes R$ 1,053 bilhão negativos.
Em outras palavras, as dívidas e demais compromissos do clube passaram a superar seus bens e direitos em mais de R$ 1 bilhão.
O rombo patrimonial cresceu aproximadamente R$ 279,6 milhões apenas entre janeiro e julho de 2026, alta de 36,1%.
A comparação com julho de 2025 é ainda mais reveladora.
Naquele momento, o patrimônio líquido era negativo em R$ 529,2 milhões.
Um ano depois, o buraco aumentou em R$ 524,5 milhões.
Mais do que dobrou.
O balancete de julho não atualizou a dívida total incluindo a Arena de Itaquera, razão pela qual o último número comparável permanece próximo de R$ 2,8 bilhões, registrado no primeiro semestre.
É este conjunto que desmonta qualquer narrativa de recuperação financeira.
Em junho de 2025, quando Stabile acabara de assumir, a dívida total estava em R$ 2,623 bilhões.
Um ano depois, aproximava-se de R$ 2,8 bilhões.
E isso apesar do benefício contábil de R$ 217 milhões proporcionado pela renegociação tributária, que, por sinal, não vem sendo cumprida integralmente.
Pior: parte relevante do dinheiro utilizado para atravessar 2026 não veio de geração saudável de caixa.
Veio do futuro.
Em janeiro, o Corinthians tomou R$ 70 milhões numa operação ligada aos recebíveis da Liga Forte União.
O empréstimo estava lastreado nas cotas de direitos de transmissão de 2026 e custava CDI mais 3% ao ano.
Dinheiro futuro trazido para o presente — pagando juros — para quitar obrigações urgentes, inclusive transfer bans e parcelas da CNRD.
No mês seguinte, a situação piorou.
Documentos analisados pela administradora judicial do RCE demonstraram que, apenas em fevereiro, o Corinthians realizou mais R$ 70,65 milhões em antecipações.
Foram R$ 46,9 milhões referentes à Esportes da Sorte e R$ 23,75 milhões ligados ao contrato da Nike, estes através de operação estruturada com o Banco Daycoval.
A própria administradora judicial destacou que esses valores não constituíam receita nova.
Eram operações financeiras.
De janeiro para fevereiro, a conta de empréstimos do Corinthians saltou de R$ 361,4 milhões para R$ 381,9 milhões.
Somando apenas as operações em que os valores estão publicamente identificados — LFU, Esportes da Sorte e Nike —, são pelo menos R$ 140,65 milhões obtidos com receitas futuras ou lastreados nelas.
E o valor real é maior.
No balancete de março, a própria diretoria admitiu que havia antecipado outras receitas que seriam recebidas durante 2026 e prorrogado empréstimos para manter o clube funcionando, sem detalhar todos os contratos envolvidos.
Depois veio a operação para pagar o Talleres pela contratação de Rodrigo Garro.
Sem dinheiro para quitar aproximadamente US$ 7 milhões aos argentinos, o Corinthians recorreu a uma estrutura financeira montada pela OutField.
A dívida transformou-se numa obrigação de aproximadamente US$ 8,5 milhões, dividida em 26 parcelas.
A operação foi estruturada através de FIDC e utiliza recebíveis futuros como lastro.
Até a CBF passou a funcionar como fonte de antecipações.
A entidade adiantou valores ao Corinthians em meses anteriores para que o clube pagasse compromissos vencidos e folha salarial.
Em 11 de setembro, porém, recusou novo pedido.
A saída encontrada por Stabile foi antecipar outra parcela do contrato com a Esportes da Sorte.
O dinheiro serviu para pagar salários do futebol masculino e direitos de imagem do feminino pouco antes de partidas decisivas.
O problema evidente é que cada real retirado de outubro, novembro ou dezembro para resolver setembro deixa de existir quando outubro, novembro ou dezembro chegarem.
Não por acaso, o Corinthians já acumula novamente atrasos.
Há direitos de imagem e premiações pendentes, dificuldades no cumprimento da CNRD e ausência de receita garantida para compromissos imediatos.
Em setembro, a dívida com jogadores e integrantes da comissão técnica masculina rondava R$ 25 milhões, sem contabilizar a folha seguinte.
Em agosto, diante da ausência de vendas de jogadores, a administração chegou a estudar algo ainda mais preocupante: comprometer até 30% das receitas de 2027 — dinheiro que pertencerá à próxima gestão.
O Estatuto permite a operação dentro de determinadas condições.
Curiosamente, o mesmo regramento utilizado para amparar a possibilidade de antecipar receitas não é tratado com o mesmo rigor quando determina transparência.
O artigo 122, §2º estabelece:
“O clube divulgará mensalmente em sua sede social e em seu sítio oficial suas demonstrações financeiras.”
Stabile não cumpre.
O próprio balancete de julho somente foi divulgado em 29 de setembro, praticamente dois meses depois do encerramento do período que deveria retratar.
A gestão Stabile é um desastre.
E parcela enorme da culpa pertence a quem colocou e manteve a marionete na cadeira presidencial — leia-se Paulo Garcia, o Centrão e seu grupo de “notáveis”.
Também a ‘Renovação e Transparência’, que apoiou a tragédia em troca da fracassada tentativa de evitar a expulsão de Andres Sanchez.

