Fim das bets é grande vitória da sociedade

O Brasil demorou, mas finalmente decidiu enfrentar de maneira efetiva uma das maiores aberrações surgidas no país nos últimos anos: a transformação do vício em jogo num negócio onipresente, tratado como entretenimento e empurrado diariamente à população por clubes de futebol, emissoras, influenciadores e celebridades.
A Medida Provisória nº 1.394, assinada nesta sexta-feira (25), determina o fim das bets no Brasil.
E não se limita ao chamado “Jogo do Tigrinho”.
A proibição abrange apostas de quota fixa sobre eventos esportivos reais e também os cassinos virtuais.
Ou seja: alcança tanto a aposta no resultado de Corinthians x Palmeiras quanto roletas, caça-níqueis e outros jogos eletrônicos que passaram a caber dentro do telefone celular de qualquer brasileiro.
A MP também começa a fechar as portas pelas quais esse mercado se infiltrou na sociedade.
A partir de sua publicação, fica proibida a entrada de novos recursos nas contas dos apostadores.
Dez dias depois, os sites e aplicativos deverão deixar de oferecer as apostas no país.
A publicidade também será atingida.
Propagandas, ações de marketing e patrocínios de bets ficam proibidos em qualquer meio, físico ou digital, e as marcas deverão ser retiradas no período de transição.
Isso inclui, portanto, o enorme aparato publicitário que transformou clubes de futebol e seus uniformes em outdoors ambulantes das casas de apostas.
Há ainda um ponto talvez mais importante: o dinheiro.
Bancos, instituições de pagamento e operadores de Pix ficarão impedidos de processar ou viabilizar transações destinadas às apostas, ressalvadas aquelas necessárias para encerrar as operações e devolver valores aos clientes.
É uma medida essencial.
Não basta derrubar o site se o dinheiro continuar circulando.
A MP também obriga lojas de aplicativos e provedores de internet a agir contra serviços proibidos, além de permitir a indisponibilização de conteúdos ilegais.
E tenta responder ao argumento, repetido pelos defensores das bets, de que a proibição simplesmente empurraria o jogo para a clandestinidade.
Foi criado o Comitê Interinstitucional de Fiscalização da Exploração e da Publicidade Ilegal de Apostas, sob coordenação da Casa Civil.
Polícia Federal, Receita Federal e Coaf deverão compartilhar informações para combater operadores clandestinos e movimentações financeiras relacionadas à atividade.
Valores declarados perdidos em razão da exploração irregular serão destinados ao Fundo Nacional de Segurança Pública.
Ou seja, a MP não simplesmente fecha a porta da frente.
Tenta também vigiar as janelas.
Há preocupação, corretamente, com quem ainda possui dinheiro depositado nas plataformas.
O texto estabelece um período de transição para pagamento de prêmios e devolução dos saldos aos apostadores.
Segundo o cronograma anunciado pelo governo, os usuários poderão retirar voluntariamente seus recursos e haverá mecanismos para restituição dos valores remanescentes.
As autorizações concedidas às empresas serão extintas após o período previsto na MP, por motivo de interesse público, sem direito à devolução das outorgas pagas nem a indenização pelo governo.
Tudo isso acontece depois de o país descobrir, da pior maneira possível, que regulamentar esse mercado não eliminou seus enormes danos sociais.
Segundo dados apresentados pelo Ministério da Saúde durante o anúncio da medida, os prejuízos associados ao jogo produziriam custo social de R$ 38,8 bilhões por ano no Brasil.
O governo também citou estudos relacionando dependência em jogos a endividamento e maior risco de suicídio.
Pesquisas mostram ainda que mais da metade dos brasileiros que apostam já atrasou alguma conta.
Clubes argumentaram que a retirada dos patrocínios provocaria enormes prejuízos e chegaram a falar em “fim do futebol brasileiro”.
É um exagero difícil de sustentar historicamente.
Corinthians, Santos, São Paulo, Flamengo, Vasco, Grêmio, Internacional e tantos outros construíram suas histórias, conquistaram Libertadores, Campeonatos Brasileiros e títulos mundiais muito antes de estamparem casas de apostas nas camisas.
A Seleção Brasileira ganhou cinco Copas do Mundo sem precisar de uma bet como patrocinadora.
No fim, a sociedade venceu.
Talvez, daqui a alguns anos, cause espanto lembrar que durante tanto tempo aceitamos como absolutamente normal que milhões de brasileiros fossem estimulados, em muitos casos, por dissimulados, todos os dias, a entregar seu dinheiro a um cassino instalado dentro do próprio bolso.


MP caduca em 120 dias
E pode ser reeditada por mais 120…logo 8 meses para o Congresso dar fim, tendo em vista que no período esse buraco negro sugador de dinheiro estará tampado.