Dois erros não fazem um acerto

Da FOLHA
EDITORIAL
- Resposta ao 11 de Setembro levou os EUA a guerras desastrosas e infrações de direitos fundamentais
- Guantánamo e programas secretos da CIA constituíram violações dos valores que o país dizia proteger; Trump recicla a política do medo
Vinte e cinco anos depois, o 11 de Setembro permanece como marco histórico não apenas pela dimensão do horror, que deixou 2.977 mortos, excluídos os 19 sequestradores, mas pela sucessão de decisões políticas tomadas em seu nome.
A manhã em que aviões comerciais foram lançados por terroristas liderados por Osama bin Laden contra as torres do World Trade Center e o Pentágono expôs a vulnerabilidade da maior potência mundial. A reação demonstraria que democracias também podem infligir danos duradouros a si mesmas quando, dominadas pelo medo, abrem mão de limites legais, controles institucionais e exame dos fatos.
Os atentados exigiam resposta à Al Qaeda e ao regime do Talibã no Afeganistão. Não justificavam tortura, prisões por tempo indeterminado, centros clandestinos de detenção, vigilância em massa ou a invasão do Iraque.
O governo George W. Bush explorou o trauma para ampliar poderes e conduzir uma guerra baseada em premissas falsas. Saddam Hussein não participara dos ataques nem possuía arsenais de destruição em massa apresentados como ameaça iminente.
O conflito derrubou uma ditadura sanguinária, mas deixou centenas de milhares de mortos, fortaleceu o Irã e contribuiu para o extremismo que se pretendia combater. A ocupação do Afeganistão se prolongou por duas décadas para terminar com a volta do mesmo Talibã ao poder.
A Guerra ao Terror mostrou como uma sociedade atacada pode confundir defesa com licença para agir sem freios. Guantánamo, Abu Ghraib e os programas secretos da CIA não constituíram desvios menores, mas violações dos valores que o país dizia proteger.
Esse legado nocivo ganha relevância renovada no segundo mandato de Donald Trump.
O 11 de Setembro não criou o trumpismo, e seria simplista traçar uma linha direta entre os atentados e a atual erosão democrática americana. A resposta aos ataques, contudo, ajudou a normalizar uma Presidência mais poderosa, a invocação constante de emergências e uma linguagem política fundada em ameaças.
Em vez de concentrar a mobilização num inimigo estrangeiro, o republicano tornou alvos parcelas da sociedade: imigrantes, universidades, jornalistas, servidores, adversários e instituições capazes de limitar o Executivo.
O medo do terrorismo cedeu espaço ao medo do outro. Cindido num grau não observado havia décadas, o país nunca mais se uniria como nas horas que se seguiram àquela manhã de 11 de Setembro, vinte e cinco anos atrás.

