Elogio da esterilidade

Da FOLHA

Por RUY CASTRO

  • Lula só teria a ganhar se fosse estéril; seu filho Lulinha é um completo estrupício
  • No caso de Flávio B., a esterilidade deveria ter começado bem lá atrás, pelo avô dele

Por ter me dedicado a biografar algumas figuras da cultura brasileira, às vezes sou chamado a opinar sobre questões do gênero biografia. Algumas: o que fazer quando duas fontes dão informações discrepantes sobre o mesmo assunto? Como saber que uma fonte está dizendo a verdade? Como induzir uma fonte a se abrir sobre um assunto de que ela não quer falar? Pode não parecer, mas não são problemas tão difíceis de resolver. Dei dicas sobre isso num livro publicado em 2022, “A Vida por Escrito – Ciência e Arte da Biografia” (Companhia das Letras). Mais complicada é a pergunta: quem é o biografado ideal?

A primeira condição, a meu ver, é ele estar morto. Não porque, se vivo, pode não gostar do que escrevi e me ameaçar com um processo —mas porque, enquanto estiver vivo, sua história não terá terminado, e que graça tem contar uma história pela metade? Além disso, os campeões de processos contra os biógrafos não são os biografados vivos, mas os parentes dos biografados mortos. Não todos, mas alguns, aqueles que se revoltam ao ler numa biografia coisas menos primorosas que não sabiam sobre seu parente ilustre. E os descontentes nem sempre são a ex-mulher ou os filhos, mas irmãos, netos, sobrinhos e até primos do biografado.

Daí minha sugestão para este problema. Para mim, o biografado ideal deveria ser órfão, filho único, solteirão, estéril e brocha. Se sua vida for mesmo interessante, ele não precisará de parentes em qualquer grau. E, agora, concluo eu, o mesmo se deveria exigir de candidatos à Presidência da República.

Lula, por exemplo, teria muito a ganhar se fosse estéril. Seu filho Lulinha —que só nós da imprensa e os bolsonaristas chamamos de Lulinha— é um estrupício como cidadão e mais ainda como filho de candidato. No caso de Flávio Bolsonaro, a esterilidade deveria ter começado bem lá atrás, pelo avô dele. A inexistência de Jair Bolsonaro preencheria uma lacuna.

Lulinha e Flávio B. vivem de negociatas com gente suspeita e têm um monte de sujeiras a explicar. Mas só Flávio B. quer ser presidente.

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