As vacinas e a estupidez humana

Da FOLHA
Por DRAUZIO VARELLA
- Quem dissemina boatos sobre vacinas deve ser julgado por crime contra a saúde pública
- No caso de médicos, os conselhos devem impedi-los de exercer a profissão
Ignorância é uma coisa, estupidez é outra.
Todos nós somos ignorantes em várias áreas. Não entendo nada de astronomia e não falo mandarim, mas, se decidir estudar ou se alguém me der aulas, pelo menos um pouco vou aprender. Para a ignorância existe antídoto: o aprendizado.
Para a estupidez não há remédio, porque ao estúpido falta autocrítica, é um ignorante que se julga autoridade no assunto. Do alto de sua empáfia, é capaz de falar os maiores absurdos com ares de doutor honoris causa. Impossível convencê-lo com argumentos lógicos, ele é imune à racionalidade. Se a realidade o contradiz, ele faz malabarismos para distorcê-la; as palavras e as ideias alheias não o interessam, a dúvida não faz parte do seu repertório, o estúpido é um poço de certezas absolutas.
O que às vezes nos desconcerta é que a estupidez pode acometer determinadas áreas da cognição, enquanto preserva outras. Um dos homens mais cultos que conheci, professor respeitado no ambiente acadêmico, foi internado em coma hiperglicêmico porque se negava a tomar medicamentos alopáticos para o diabetes. Não havia quem o convencesse de que chás de ervas e outros tratamentos “naturalistas” eram inúteis.
Nasci no Brás, na zona leste de São Paulo. Não vacinavam as crianças naquele tempo. Tive sarampo, coqueluche, difteria, varicela, cachumba, escarlatina e perdi a conta de quantas viroses respiratórias.
Quando peguei rubéola, as vizinhas trouxeram as filhas para brincar lá em casa, para que adoecessem e adquirissem a imunidade que as protegeria das malformações fetais quando fossem adultas.
Eram as “doenças da infância”, espécie de tributo a pagar para atingir a adolescência. Os que ficavam pelo caminho engrossavam as taxas de mortalidade infantil.
Qualquer doença febril que deixasse a criança derrubada enlouquecia mães, pais e avós, tomados pelo pavor da poliomielite. Nunca estudei numa classe sem uma menina ou menino com aquelas próteses metálicas, rústicas, que batiam contra o assoalho.
Mais tarde, na faculdade, visitávamos o setor do “pulmão de aço”, equipamento que recebia as crianças em que o vírus paralisara os músculos respiratórios. Era um tubo metálico com um colchão na parte inferior, no qual a criança permanecia deitada, só com a cabeça do lado de fora. Em movimentos rítmicos, a máquina retirava e repunha o ar no interior do tubo, para expandir a caixa torácica e encher os pulmões de ar e depois comprimi-la para obter o efeito contrário.
A criança ficava sem se mover até a musculatura se recuperar ou até que a morte a libertasse. Quando faltava luz, o hospital inteiro corria para manter as máquinas funcionando mecanicamente.
No Hospital Emilio Ribas, tínhamos aula na enfermaria de varíola, onde os pacientes passavam os dias no leito, proibidos de chegar até o corredor para não transmitir o vírus. Traziam no rosto as marcas das vesículas, que deixavam cicatrizes definitivas. Muitos acabavam cegos. Nas formas mais graves, a mortalidade chegava a 50%.
Em 1980, a OMS declarou que a vacinação eliminara a varíola do mundo. Em março de 1989, ocorreu o último caso de poliomielite no Brasil. Em 2016, a OMS nos outorgou o certificado de país livre do sarampo. Infelizmente, a queda dos índices vacinais permitiu a reintrodução do vírus em 2019. Neste ano já ocorreram 23 casos novos no estado de São Paulo.
Cá entre nós, caríssima leitora e prezadíssimo leitor, uma pessoa com pleno acesso a informações como estas e que se orgulha de ser contrária à vacinação em nome de teorias estapafúrdias ou, pior, por posições políticas é ou não é estúpida? Só a estupidez pode explicar tamanha imbecilidade.
Agora, aqueles que se empenham em disseminar boatos, para minar a confiança em vacinas que passaram por todos os estudos exigidos pela Anvisa, merecem punição exemplar. Devem ser processados e julgados por cometer um crime contra a saúde pública. Não é crime induzir crianças, adolescentes e adultos incautos a correr risco de morte por acreditarem nas mentiras que contam?
Nos casos dos médicos que o fazem —infelizmente existem alguns—, o crime é mais grave. Qual a justificativa para um profissional que estudou seis anos para entender o funcionamento do organismo humano defender ideias e teorias sem sentido, que prejudicarão a sociedade inteira?
Os conselhos médicos deveriam impedi-los de exercer a profissão.

