Por que uma campeã de boxe foi dominada pelo marido?

Da FOLHA

Por MIRIAN GOLDENBERG

  • É mais fácil chamar a vítima de burra do que compreender por que ela não consegue se separar
  • Quantas mulheres permanecem em relações abusivas por medo, preconceito e vergonha?

Por que Christy não vai embora?

Essa pergunta ficou me angustiando enquanto assistia ao filme “Christy” e ao documentário “Untold: Deal with the Devil”.

Em 1991, Christy, aos 22 anos, se casou com Jim Martin, de 47. Além de marido, ele era seu treinador, empresário e confidente.

Dois anos depois, Christy se tornou a primeira mulher a assinar contrato com Don King, um dos mais famosos promotores da história do boxe. Ela lutou em eventos importantes, incluindo uma luta no card de Mike Tyson em 1996, que ajudou a popularizar o boxe feminino. Christy virou uma estrela do boxe e foi capa da Sports Illustrated.

Durante quase 20 anos, Christy sofreu violência física, psicológica e verbal, além de abuso financeiro e manipulações do marido. Ele ameaçava matá-la se ela o deixasse. Usava também contra ela o medo de que sua sexualidade fosse revelada.

Em 2010, quando decidiu terminar o casamento, Christy foi esfaqueada e baleada pelo marido. Ele foi condenado a 25 anos de prisão pelo ataque.

Por que Christy não conseguiu se separar antes?

O que mais chamou a minha atenção foi o contraste: Christy era uma atleta de elite, corajosa e disciplinada no ringue, mas, dentro de casa, estava à mercê da dominação masculina.

Se, como mostram o filme e o documentário, havia manipulação, abuso e violência física, psicológica e verbal, por que ela permaneceu casada durante 19 anos?

Quantas mulheres vivem assim? Quantas não vão embora por medo, preconceito ou vergonha? Quantas permanecem em situações abusivas porque foram ensinadas a aceitar a dominação masculina?

Por que é mais fácil chamar Christy de “burra”, “ingênua” ou “passiva”? Por que é mais difícil entender como uma mulher pode ser condicionada a aceitar uma realidade que, vista de fora, parece absurda?

No livro “Fighting for Survival: My Journey through Boxing Fame, Abuse, Murder, and Resurrection”, publicado em 2022, Christy tenta responder a essa pergunta que me angustia.

No início da relação, Christy não via o marido como um agressor. Ele entrou na vida dela como treinador, mentor e confidente. Christy tinha medo de assumir que era lésbica porque temia a reação da família, do público e do mundo do boxe. O marido usava o medo, o preconceito e a vergonha para mantê-la sob seu domínio.

O livro aborda também a dependência química e a dificuldade de romper esse ciclo. Mais do que contar “como o marido fez isso com ela”, Christy revela como demorou a reconhecer que estava presa em uma relação de dominação, abuso e violência.

A campeã que aparecia diante de milhares de pessoas no ringue sentia que não podia contar a verdade sobre sua sexualidade e sobre a violência que sofria. Ela disse que estava “protegendo todo mundo” ao esconder o que acontecia dentro de casa.

No filme e no documentário, a mãe dela é retratada como alguém que prioriza as aparências e a estabilidade, não aceita a sexualidade da filha, minimiza a violência e incentiva Christy a permanecer no casamento. Senti muita raiva dessa mãe que ignorou todos os pedidos de ajuda de Christy.

A história de Christy mostra como a violência doméstica também é perpetuada por familiares, amigos e colegas de trabalho que, por medo, vergonha, preconceito e até mesmo por interesse, silenciam o abuso.

Ao final, em vez de perguntar “por que Christy não vai embora?”, fiquei me perguntando “por que tantas pessoas que amavam Christy permaneceram em silêncio e algumas, como a mãe, foram cúmplices do agressor?”

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