Golpes em alta

Da FOLHA
EDITORIAL
- Enquanto casos de roubos e furtos diminuem, os de estelionato aumentam com expansão da digitalização
- É preciso modernizar a investigação policial; mesmo com 2,2 milhões de casos de estelionato em 2025, apenas 4,1 mil pessoas foram presas
Embora roubos e furtos atormentem a vida de muitos brasileiros, foi o estelionato que mais cresceu entre os crimes contra o patrimônio privado. Trata-se de uma pulverização do golpe no país, seja por meios de comunicação, como mensagens pelo telefone ou pela internet, seja presencialmente, como o esquema da máquina falsa de cartão de crédito.
É o que revela a 20ª edição do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, publicada em julho.
Enquanto as ocorrências de roubos convencionais (de veículos, residências, estabelecimentos comerciais e contra transeuntes) diminuíram 18,3% entre 2024 e 2025, houve aumento de 3,1% nos casos de estelionato no mesmo período —desde o início da série histórica, em 2018, verifica-se um salto de 429%.
São Paulo possui a maior quantidade absoluta de casos (833 mil) e a maior taxa por 100 mil habitantes (1.808). Ao lado de Rio de Janeiro e Ceará, o estado não disponibilizou dados sobre fraudes praticadas por meio digital.
Distrito Federal e Paraná vêm em seguida em números proporcionais às suas populações. Paraíba (248,7), Mato Grosso do Sul (412,4) e Maranhão (467,4) apresentam as menores taxas do país.
Há um risco de subnotificação desse tipo de crime, que até o início deste ano ainda exigia representação da vítima para dar prosseguimento à ação penal.
Em maio, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sancionou uma lei, oriunda de projeto do deputado Kim Kataguiri (Missão-SP), que permite a investigação pelo Ministério Público sem a necessidade de representação da vítima e inclui crimes como ceder a conta bancária para a prática de golpes.
O poder público precisa conter a impunidade, que estimula a prática criminosa. Mesmo com um total de 2,2 milhões de casos em 2025, apenas 63,7 mil ações penais foram instauradas pelos Ministérios Públicos estaduais no período e só 4,1 mil pessoas foram encarceradas pelo delito, incluindo presos provisórios.
As dificuldades no combate ao estelionato estão relacionadas aos obstáculos enfrentados pela área de investigação no país. Faltam recursos e capacitação técnica a policiais civis. É preciso modernizar protocolos e expandir as delegacias especializadas.
Seguir o fluxo do dinheiro ilícito exige ações de inteligência —97% dos estelionatos relatados às polícias não chegam à Justiça.
Golpistas adaptaram fraudes para tempos de alta bancarização e digitalização. Ou as polícias, Ministérios Públicos e o Judiciário se atualizam, ou a população seguirá à mercê do crime.

