Mais uma homenagem a Mané…


SE ACASO VOCÊ CHEGASSE…**


 


POR ROBERTO VIEIRA


 


http://oblogdoroberto.blog.terra.com.br/


 


 


‘Fui mãe aos 12 anos. Sabe lá o que é ser mãe aos 12 anos. Pois é! Fui mãe cantando. O que muita gente sabe de ouvir contar, eu vivi. Minha mãe ia lavar roupa e me deixava do lado, brincando com a água. Ela cantava e eu ouvia. Depois de um tempo, quem cantava era eu. Ela ficava me ouvindo, sorrindo. Mas quando soube da minha gravidez, ela não sorriu nunca mais.


 


Não, não era amor o que eu sentia. Era a vida se espalhando no meu corpo e eu ia atrás da vida. Cantando. Meu primeiro amor morreu quando eu fiquei gente grande. Viúva. E cantando.


 


Disseram que eu era um passarinho, mas eu não sou não. Passarinho era ele. Ele que inventou de me falar tantas coisas que eu nem sabia direito pensar em mim. Ele falando, e eu lembrando da beira do rio, minha mãe lavando as roupas e o tempo voando nas águas santas da vida.


 


Fui driblada por ele. Confesso. Ele me ofereceu o quarto pr’eu trocar de roupa lá no Chile. E foi ali mesmo que começou toda aquela loucura.


 


Quando eu assistia as partidas, eu via aquele menino fazendo gol, sorrindo, fazendo sorrir. Eu não acreditava em nenhuma arte que não fosse o samba, mas ele fazia com a bola o que eu tentava fazer com a voz. O mundo não queria a gente junto. Mas ele sorria pro mundo o tempo todo. E depois, sorria de volta pra mim.


 


Ele disse que a taça era minha. E eu lá queria saber de taça! Eu queria era aquelas pernas tortas se enroscando na minha voz. Eu queria ser o João que era brinquedo nas pernas dele. De noite, quando ele chegava distante, eu cantava: “Dorme, Mané. Dorme, Mané!’


 


E ele adormecia em meus braços.


 


Muita gente vem me falar da tristeza. Dos palavrões que guardavam para mim, a mulher que destruíra o lar do anjo de pernas tortas. Dos hotéis que nos negavam um quarto. Dos amigos que deram as costas nos momentos de tristeza. Muita gente vem me falar da tristeza. Como se eu não conhecesse a tristeza. Como se a tristeza não houvesse nascido comigo, gerado meu primeiro filho, chorado minha primeira viuvez. Como se eu não matasse a tristeza no grito, como um boato, como uma chuva de verão, por uma justa causa.


 


Tristeza eu deixo pros outros. Para aqueles que imaginam que a vida é feita só de amor e se desesperam nas derrotas, nas lágrimas. Como se a vida não fosse feita de lágrima, muita lágrima. Lágrima, semente do samba.


 


Hoje, vinte e cinco anos depois do adeus do meu passarinho, eu vou cantar. Porque mais que tudo, é preciso cantar.


 


Mané, meu Mané! Se acaso você chegasse!’


 


 


                                                ELZA SOARES


 


 


** ‘Se acaso você chegasse’ foi o primeiro grande sucesso da extraordinária Elza Soares.


 

Facebook Comments

Posts Similares

Deixe uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.