Proibir o Discord não vai salvar as nossas crianças

Da FOLHA

Por MARILIZ PEREIRA JORGE

  • Mais do que apagar incêndios digitais, Estado precisa investir em inteligência e investigação proativa
  • Combate real se faz com polícia capacitada nos encalços de criminosos, não com burocratas desligando o sinal da internet

A morte de uma menina de 13 anos, que tirou a própria vida em uma transmissão ao vivo pelo aplicativo Discord, é uma tragédia devastadora que deveria nos paralisar de dor. É horror em estado puro. Revela um abismo de solidão, sofrimento psíquico e vulnerabilidade infantil que exigiria da sociedade um luto atento e uma reflexão profunda. No entanto, a resposta imediata do debate público foi rápida, mas profundamente inútil: o clamor pelo banimento da plataforma.

Celebridades e políticos, incluindo a primeira-dama, Janja da Silva, ressuscitaram o velho discurso proibicionista. É a mesma cena de quando ela mirou o TikTok. Figuras públicas que ignoram a dinâmica da internet correm para pedir a extinção do aplicativo da vez, alimentando a ilusão de que, ao deletar um ícone da tela do celular, a ameaça evapora. Não evapora.

A arquitetura do extremismo e do crime digital opera exatamente como a Hidra da mitologia grega. Ao cortar uma cabeça, três novas nascem no mesmo lugar. A Hidra sintetiza a estrutura descentralizada da rede, na qual a perversão não depende do suporte onde se manifesta. O aplicativo é apenas um hospedeiro temporário. Banir o Discord não acaba com os grupos de cooptação, automutilação ou incitação ao suicídio. O público jovem é digitalmente ágil e a migração leva minutos. Se o aplicativo for bloqueado hoje, amanhã as mesmas células operarão no Telegram, no SimpleX, no Zangi, no Wire, no Potato Chat, no Kick, no Roblox ou em fóruns fechados da dark web. A Hidra não morre quando se fecha uma porta, ela apenas se multiplica em salas ainda mais subterrâneas.

Haverá quem argumente que essas empresas de tecnologia já não cumprem as ordens judiciais de quebra de sigilo e entrega de dados mesmo. É fato que a colaboração das big techs é frequentemente morosa e reticente. No entanto, uma corporação com representação jurídica, operação comercial e marca estabelecida no país tem CNPJ, contas bancárias e executivos sujeitos a multas e intimações. Existem mecanismos de pressão e rastro ilegal. Quando o Estado bane uma plataforma oficial, ele empurra adolescentes para serviços clandestinos hospedados em paraísos fiscais, desenhados justamente para ignorar qualquer lei. O resultado é a cegueira total das autoridades que terão as mãos atadas pela absoluta impossibilidade de investigação policial.

A resposta não está no teatro da proibição, mas na regulamentação dura. O caminho passa pela exigência do “safety by design”, a obrigação de que a segurança e a proteção de menores façam parte da arquitetura nativa do produto. Isso exige moderação ativa em português, inteligência artificial capaz de interromper transmissões de violência e automutilação em tempo real, verificação efetiva da idade, canais de emergência com as forças policiais.

Mais do que apagar incêndios digitais, o Estado precisa investir em inteligência e investigação proativa. Grupos extremistas e células de aliciamento não podem ser descobertos apenas quando uma criança morre numa transmissão ao vivo. Essas redes de perversão precisam ser monitoradas, infiltradas e desmanteladas, e seus operadores devidamente presos antes que façam a próxima vítima. O combate real se faz com polícia capacitada nos encalços de criminosos, não com burocratas desligando o sinal da internet.

Proibir essa ou aquela rede funciona como um anestésico para que os adultos durmam com a falsa sensação de dever cumprido. Mas uma canetada não acaba com a dor, o isolamento social, a busca desamparada por pertencimento e o adoecimento mental que empurram nossos adolescentes para os braços de aliciadores virtuais. Enquanto a sociedade continuar tratando a crise psíquica dessa geração como um mero problema de tecnologia, continuaremos enterrando a juventude.

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