O único obituário perfeito

Da FOLHA
Por RUY CASTRO
- Ao informar sobre o falecido, as famílias só falam de suas qualidades e escondem as mazelas
- O ideal seria que as pessoas deixassem prontos os seus próprios obituários, contando tudo
Fã compulsivo de obituários de jornal, a cada qual que leio saio querendo ter conhecido o falecido. É sempre um marido impecável, pai de família exemplar, amigo dos amigos, filantropo, honestíssimo. Um deles, num Natal, salvou da morte um peru. Ao se preparar para abatê-lo, percebeu que, intuindo o fim próximo, a ave o olhara tão compungida que ele, comovido, recolheu a faca. E decidiu que, na noite seguinte, o peru iria à festa como convidado, e não assado, de pernas para cima na bandeja. Por que eu gostaria de conhecer tal pessoa? Para ter certeza de que existira.
Quero crer que muitos defuntos, se lessem seu obituário, não se reconheceriam nele. Por quê? Porque as informações de que eles se compõem foram passadas por suas famílias, e nada como as famílias para apagar as menores máculas de seus membros idos.
Uma família revelará tranquilamente que seu ente querido era hipertenso, cardíaco e diabético, mas nunca, se for o caso, que era também alcoólatra. Para quase todo mundo, a hipertensão, a cardiopatia e a diabetes são doenças, mas o alcoolismo é uma sem-vergonhice —embora a OMS também o classifique como doença, sem conotações morais.
Como seria se as pessoas escrevessem seus próprios obituários? Um deles poderia dizer: “Fulano de Tal, falecido ontem, nunca quis se cuidar. Bebeu, fumou e cheirou todas. Só voltava da rua às 7 da manhã. Praticar esporte, nem pensar. Comeu de tudo que era proibido e entupiu alegremente as artérias. Morreu com 39 anos bem vividos e deixará saudades nas 351 namoradas com quem transou, todas com nome e performance registrados em caderninhos, inclusive as casadas (nome do cônjuge anexo).”
Acabo de saber que algo parecido aconteceu há dias em Tampa Bay, na Flórida. Pouco antes de morrer, aos 90 anos, Maynard Hirshon mandou seu obituário para o jornal local. Curto e grosso, dizia: “Serei lembrado durante algum tempo por minha família, cujos nomes não merecem ocupar espaço aqui, e por alguns amigos. Tive uma vida ótima. Todo mundo morre. Bye-bye”.

