God bless America, baby

De O GLOBO
Por NELSON MOTTA
São incontáveis grandes artistas americanos, seremos eternamente gratos. E é doloroso ver hoje os EUA sob um governo movido a vinganças e autoglorificação
Minha geração foi formada na transição da cultura europeia para a americana nos anos 1960. Cinema, literatura, teatro, artes plásticas, quadrinhos, tecnologia, política, tudo nos parecia mais moderno que na Europa, o futuro era americano. Na ditadura, ir aos Estados Unidos era um choque: a plena liberdade de expressão, gente na rua com camisetas de Che Guevara, venda de pôsteres de Lênin e Trotsky, pessoas xingavam Nixon, tudo que no Brasil daria cadeia e tortura. Em nossa idade das trevas brasileira também acreditávamos no sonho americano, de liberdade, competência e livre iniciativa.
Nesse tempo, embora amasse westerns na tela, detestava a “síndrome do caubói americano” moderno, a violência, a truculência, o autoritarismo, ser a polícia e o juiz moral do mundo, sempre em guerras inúteis e, apesar de seu poder de fogo, perdendo todas. Sim, a Europa era muito mais civilizada e humanista, clássica e tradicional, mas nos parecia velha, antiga, ultrapassada. Coisas da juventude.
Tudo remete às imagens de um soldado com chapéu de caubói cavalgando uma bomba atômica que sai do avião para detonar o apocalipse no “Dr. Fantástico”, de Stanley Kubrick. Em “Apocalipse Now”, Francis Ford Coppola mostra o maior exército da Terra atolado no Vietnã e na insânia da guerra, que custou 50 mil vidas, trilhões de dólares e uma derrota fragorosa. Por nada. Pela “síndrome do caubói”.
Hoje, mais do que nunca, essa síndrome nefasta está no poder, com um poderio atômico capaz de destruir o mundo — mas, depois do Iraque e do Afeganistão, de novo está atolado em uma guerra inútil que lhes custa uma fortuna e pode custar a Trump uma derrota nas eleições de novembro e um impeachment. Mas agora tudo é mais tosco, o caubói master da guerra é o engomadinho patético Pete Hegseth, que saiu de uma bancada de talk show para comandar o maior exército do mundo e obedecer a uma estrela de reality show. Talvez a “era do entretenimento” tenha ido longe demais.
Aprendemos a admirar o cinema americano moderno, com sua densidade e diversidade de gêneros e estilos da geração de Spielberg, Lucas, Scorsese, a literatura de Jack Kerouac e da beat generation, de Philip Roth e Saul Below, o melhor jazz do mundo e seus gênios Miles Davis e John Coltrane, seus compositores dos “anos dourados” como Cole Porter e George Gershwin, e fundadores do pop como Bob Dylan e Stevie Wonder, são incontáveis grandes artistas que a América nos deu e seremos eternamente gratos, por enriquecerem nossas vidas com tanta beleza e arte.
Por tudo isso, é muito doloroso ver os Estados Unidos de hoje, sob um governo tirânico e antidemocrático, odioso e movido a vinganças e autoglorificação. Embora a maioria absoluta dos artistas faça feroz oposição, 70% da população seja contra a guerra e uma maioria odeie Trump, o sonho americano virou um pesadelo para todos, menos para os 33% de devotos da seita trumpista.
Não só pelo amor e pela gratidão aos artistas americanos, mas por pena de tanta gente decente sofrendo tanto, God bless America, baby.

Nelson Motta nunca saiu da burrice