Húngaros revertem erosão da democracia

Da FOLHA
Por HÉLIO SCHWARTSMAN
- Apesar de passar por período difícil, democracias continuam vivas
- Caso húngaro se soma ao da Polônia, da Eslovênia e do Brasil
Viktor Orbán foi destronado pelo voto. Os relatos sobre a morte da democracia liberal são exagerados. É fato que esse sistema de governo já viveu dias mais brilhantes, mas é pouco provável que a atual maré recessiva leve a democracia à condição de espécie ameaçada. Substituí-la não é tarefa trivial. Nenhum sistema oferece melhor balanço de direitos individuais, responsividade à opinião pública e estabilidade política.
Orbán era o garoto-propaganda do iliberalismo. Foi ele quem escreveu o manual da erosão democrática, pelo qual líderes eleitos vão, em geral dentro da lei, enfraquecendo os freios e contrapesos a seu poder até que o Estado se torna mais autocrático do que democrático. Orbán levara esse movimento ao paroxismo. Ele gozava de amplo domínio sobre o Legislativo, o Judiciário e controlava os meios de comunicação. Mas não controlava tanto o eleitorado.
Após 16 anos no poder, o Fidesz, o partido de Orbán, sofreu uma surra histórica nas urnas. O futuro governo conseguiu a maioria de dois terços necessária para aprovar mudanças constitucionais. Vale lembrar que não foi só na Hungria que líderes autocráticos sofreram reveses. Algo parecido aconteceu na Polônia, na Eslovênia e, é claro, no Brasil.
Mas, se Orbán experimentara tanto sucesso como líder iliberal, por que aceitou abrir mão do poder? É justamente aí que reside a “mágica” da democracia. Ela não é virtuosa por favorecer a escolha de líderes competentes (muito pelo contrário), mas por facilitar a saída pacífica de governantes, especialmente os maus. Orbán, que é mais inteligente que a média dos candidatos a autocrata, calculou que perderia menos passando um tempo na oposição do que resistindo, por meio de violência ou golpe, à vontade popular e às sanções que sofreria no âmbito da União Europeia.
Ele continua a ser um político influente e poderá voltar pelas urnas. Trump e Netanyahu voltaram —a democracia é boa, mas não perfeita. E, no pior cenário, se vier a enfrentar processos, sabe que será bem recebido em Moscou.
