O último crime de Cláudio Castro no governo do Rio

Da FOLHA

Por BERNARDO MELLO FRANCO

Ex-governador será lembrado por secretários presos, apologia da matança e golpe da renúncia

Cláudio Castro desviou dinheiro público para comprar a reeleição. O veredito é do Tribunal Superior Eleitoral, que condenou o agora ex-governador por abuso de poder político e econômico.

O caso se arrastava desde a campanha de 2022, quando o UOL revelou a farra dos cargos secretos. O escândalo escancarou o uso ilegal da máquina, mas Castro conseguiu se reeleger no primeiro turno.

Depois de muitas delongas, o TSE marcou a conclusão do julgamento para terça-feira. O réu renunciou ao mandato na véspera, em manobra explícita para escapar da cassação.

A fuga do governador foi celebrada com choro e cantoria gospel no Palácio Guanabara. Fim melancólico para uma gestão marcada por crises, paralisia administrativa e denúncias de corrupção.

Castro era vereador em primeiro mandato quando se juntou ao azarão Wilson Witzel, em 2018. “Virei vice porque não tinha outro”, admitiria depois. Com a queda do ex-juiz, o pupilo do Pastor Everaldo virou governador. Sem força política, tornou-se refém da Assembleia Legislativa, ressuscitando a prática de lotear delegacias e batalhões de polícia entre deputados.

Num estado marcado por escândalos, o governo Castro será lembrado pela proximidade entre integrantes do primeiro escalão e o crime organizado. Quatro secretários ou ex-secretários foram em cana por ligação com traficantes e bicheiros.

O mais notório foi Rodrigo Bacellar, preso sob suspeita de vazar uma investigação da Polícia Federal contra o Comando Vermelho. O deputado foi cassado na terça pelo TSE. Também se beneficiou do esquema dos cargos secretos.

Na segurança pública, o ex-vice de Witzel reprisou a aposta no bangue-bangue. Ao se despedir, voltou a exaltar a operação que deixou 121 mortos na Penha e no Alemão, de longe a mais letal da história do estado.

Castro abandonou o cargo com outros recordes. Foi o primeiro governador eleito em mais de três décadas que não inaugurou uma única estação de metrô. Como legado aos passageiros, deixou a tarifa mais cara do país.

No domingo passado, o governador confraternizou com Eduardo Cunha numa quadra de escola de samba. Saiu de cena no dia seguinte, lançando o Rio de Janeiro numa crise institucional. Ao fugir da cassação, ele debochou da Justiça e roubou dos eleitores o direito de escolher seu sucessor. O golpe da renúncia foi o último crime de Castro.

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