A lista obscena das estupráveis

Da FOLHA
Por BECKY S. KORICH
- Colégio em São Paulo suspendeu alunos suspeitos de compartilhar mensagens misóginas
- A violência não nasceu ali, ela vem de tudo que se vê mesmo antes de se entender o mundo
Alunos de um colégio particular de São Paulo com idades de 14 a 15 anos foram punidos por fazer circular em um grupo de WhatsApp uma lista. Não era gabarito da prova, não era palavrão. Era uma lista obscena, com nomes das meninas “mais e menos estupráveis” da escola.
Havia comentários sobre quem saberia ou não fazer sexo oral, figurinhas de Jeffrey Epstein —aparentemente admirado pelos adolescentes—e um meme: “vou te estuprar”.
A lista já existia havia meses e só ganhou repercussão quando foi descoberta na semana passada pelas próprias meninas, que levaram o caso à coordenação.
Vieram as suspensões, os comunicados, as orientações em sala.
Ninguém sabe como isso começou, segundo o pai de um dos alunos punidos.
A gente sabe.
A violência não nasceu ali. Ela não foi inventada por um grupo de adolescentes particularmente criativo ou especialmente cruel. Ela vem de tudo que se ouve e de tudo que se vê mesmo antes de se entender o mundo. Vem dos pais, das músicas, das piadas, das autoridades, das celebridades, das conversas aparentemente inofensivas.
Não se trata, portanto, de um desvio localizado, algo que aconteceu naquele espaço delimitado e que pode ser corrigido com disciplina e informação.
A escola fala em “virtualidade das relações” e há algo de verdadeiro nisso: foi por meio de mensagens que tudo circulou. Mas isso reduz a dimensão do problema ao sugerir que ele está no meio, não no conteúdo, como se bastasse retirar o celular para que aquilo deixasse de existir. As redes não criam valores, elas amplificam.
A “lista de estupráveis” começa a ser escrita quando um político diz publicamente que uma mulher não merece ser estuprada porque é feia, quando afirma que não empregaria mulheres com o mesmo salário dos homens porque engravidam. Ou quando outro político brinca que a violência doméstica aumenta depois do futebol e tudo bem se for do seu time. Pode-se dizer que são frases tiradas de contexto: é justamente aí que a lista se sustenta.
A lista começa quando um homem poderoso diz “grab them by the pussy” (intraduzível) e passa a vida tratando o acesso ao corpo feminino como efeito colateral do próprio poder. Começa quando um juiz pergunta para a vítima “por que você não manteve as pernas fechadas?” Quando sistemas inteiros aceitam que, se não houve resistência, não há estupro. Para mais exemplos reais, recomendo o “Dicionário Machista: Três Mil Anos de Frases Cretinas contra as Mulheres” (2014) de Salma Ferraz —que se fosse escrito hoje teria mais de dez volumes.
A lista continua quando mulheres medem o próprio valor pela capacidade de ser desejada, quando aceitam agressões como parte do jogo. Quando organizam a vida em torno da aprovação masculina.
A violência se infiltra onde menos se percebe: nas distrações. Nas músicas que a gente canta, onde um tapa pode ser convertido em brincadeira —”dói um tapinha não dói”. Está até na literatura, no humor, na filosofia e na arte onde há inteligência e beleza.
Passado o choque e os dias de suspensão, é provável que tudo retome seu curso. O episódio se afasta, perde urgência, vira mais um caso entre tantos outros.
A lista dessas meninas, então, desaparece. Não porque deixou de existir. Ela segue sendo dita de outras formas, em outros espaços, com outras palavras, melodias e gestos. E volta ao formato dissimulado que sempre funcionou.
