A performance brega do novo milionário

Da FOLHA
Por BECKY S. KORICH
- ‘Existe algo mais brega do que um rico roubando?’
- Rico é quem dorme tranquilo; essa é a maior das riquezas
As peripécias do ex-banqueiro Daniel Vorcaro me fizeram lembrar da última coluna de Fernanda Young, publicada n’O Globo em agosto de 2019. Ela escreveu um pequeno tratado sobre o mau gosto existencial brasileiro e terminou com um recado para o Brasil de hoje:
“Existe algo mais brega do que um rico roubando? Algo mais chique do que um pobre honesto? É sobre isso que a pessoa quer falar, apesar de tudo que está acontecendo. Porque só o bom gosto pode salvar este país.”
Não faz muito tempo, os muito ricos tinham a elegância de manter a compostura. O verdadeiro luxo era minimalista, discreto, quase tímido.
O problema, portanto, não é ter dinheiro. O problema é a compulsão de ostentar, de performar riqueza — uma carência comum em quem não está preparado para sustentar as cifras que o sustentam.
O (novo) rico de hoje, para se sentir rico de verdade, precisa de testemunhas. Precisa de luz, palco e exagero. Aluga palácios na Europa para festas, coloca superiates para transportar convidados — celebridades VIP, naturalmente — e mobiliza drones para registrar o próprio deslumbramento. Como se percebe, esse tipo de abastado nunca se basta.
É tão romântico que gasta milhões de dólares para fazer um pedido de casamento diante de uma plateia de puxa-sacos, obrigada a assistir a um espetáculo de luzes no céu, com coraçõezinhos e o nome da vítima desenhado nas nuvens.
Há uma curiosidade desconcertante nesses ambientes. Quase todas as pessoas se parecem. O mesmo tipo de roupa, o mesmo ácido hialurônico no rosto, o mesmo sorriso Omo.
O currículo patrimonial também costuma ser previsível. Cobertura com piscina suspensa, casa de 2.000 metros quadrados em Miami, um pedaço de praia em Trancoso, meia dúzia de jatinhos privados, além de outras necessidades essenciais de sobrevivência.
O detalhe principal que transforma todo esse exagero em uma obra-prima do extremo mau gosto é quando a conta é paga com o dinheiro dos outros.
Dá pra ser chique com menos.
Um bilionário autêntico mora num apartamento confortável, faz as suas viagens sem anunciar ao mundo e não volta com oito malas. Não precisa de helicóptero para ir à esquina. Toma seu café na padaria sem que ninguém saiba quem é. E paga as contas com o próprio dinheiro. Rico é quem dorme tranquilo. Essa é a maior das riquezas.
O romantismo elegante cabe no ouvido da pessoa amada. Pode acontecer no quintal, na praia, no metrô — sem drones. Ser elegante é repetir roupas, é escolher o que guardar, escolher com quem ficar. Elegância, no fundo, é isso: tirar o excesso para que o essencial apareça.
A pessoa classuda sabe perder com dignidade —e sabe vencer com humildade. É chiquíssimo mudar de ideia, ser gentil com as pessoas e tratar bem as mulheres, qualidades que os bregas confundem com fraqueza.
Um mesmo gesto, curiosamente, pode ser chique ou brega. Andar de salto alto, por exemplo, pode ser elegância ou vexame dependendo de como a pessoa se equilibra. Essa é a fórmula universal: tudo depende da medida, da dose, do tamanho da verdade.
Até um palavrão que escapa num jogo de futebol pode ser mais chique do que o silêncio de quem se cala para punir alguém.
Criticar ricos espalhafatosos talvez seja apenas uma forma de elitismo moral. Pode ser. Mas é improvável que alguém nessas festas esteja preocupado com o que nós, que não fomos convidados, pensamos.
