Aprovação popular de mortes

Da FOLHA

Por VERA IACONELLI

  • Aqueles que comemoram a execução sumária de criminosos são induzidos por políticos mal-intencionados
  • A questão é que não houve qualquer avanço do poder público sobre os territórios conflagrados no Rio de Janeiro

No final da Idade Média, já entrando no Renascimento, pais levavam seus filhos para ver mulheres serem queimadas em praça pública. Talvez nos ajude a entender a banalização dessa atrocidade saber da crença difundida pela Igreja de que não se tratava de mulheres, mas de bruxas. Ao final da execução, a ideia de que problemas estariam sendo resolvidos deveria trazer alívio para muitos. Algo como “uma bruxa a menos, um mundo mais seguro!”

Silvia Federici, em “Calibã e a Bruxa”, mostra que, nos primórdios do capitalismo, era fundamental inibir qualquer comportamento emancipatório feminino. A família burguesa só se consolidaria se a mulher ficasse sob o jugo do marido e a serviço da maternidade. Passados 500 anos e muitas conquistas sociais depois, sabemos que estupro e feminicídio têm cheiro de fumaça de fogueira. Quanto mais avança o capitalismo, mais essas violências recrudescem.

Pari passu com a exploração feminina vem a exploração da massa de trabalhadores e a pobreza decorrente. A meritocracia é sua ideologia: existem pobres porque há quem não se esforce, e não porque esse é o nome do jogo.

Na entrevista que Marilena Chauí deu ao jornalista Fernando de Barros na Feira do Livro deste ano (disponível no podcast da Revista 451), podemos ouvir a grande pensadora explicar a participação da religião nessa conversa. Desde Calvino, a prova de que Deus nos ama e que, portanto, temos grandes chances de adentrar o Paraíso é sermos prósperos. Se Deus te ama, Ele demonstra isso fazendo de você uma pessoa bem-sucedida. A pobreza como falta de mérito-esforço e falta de fé-sucesso está no DNA do capitalismo.

Para completar, temos a ciência acusando o sujeito de falha adaptativa. É o que vemos em teorias a serviço da performance e da produtividade.

A forma como a população entende os bairros pobres nos quais o Estado se abstém de atuar, largados na mão de facções criminosas e milícias (agentes públicos corruptos), é um retrato dessa ideologia. Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 19% dos brasileiros vivem em áreas sob domínio de bandidos (em torno de 28,5 milhões de pessoas). São funcionárias domésticas, manicures, frentistas, ascensoristas, enfermeiras, atendentes de creches, pedreiros, garçons que trabalham à nossa volta. Cidadãos que, por vezes, precisam mentir o endereço para não perder vagas de trabalho, uma vez que são confundidos com os criminosos que tomaram seus bairros.

É claro que eles desejam que seus territórios sejam liberados das máfias que ganham mais os extorquindo do que vendendo droga. Além de serem tratados pela sociedade como “pobres-diabos” —curiosa expressão—, são achacados por criminosos diariamente.

Aqueles que relevam a morte de inocentes e comemoram a execução sumária de criminosos são induzidos por políticos mal-intencionados a crer que corpos queimados em praça pública são a solução. Eles não estão errados em pedir justiça contra as violências a que estão submetidos. A questão é que não houve qualquer avanço do poder público sobre os territórios conflagrados, única resposta possível para o problema. Do jeito que o Estado entrou, ele matou e saiu, bem ao gosto das milícias e de políticos corruptos que as encobrem. Se o objetivo final era eliminar bodes expiatórios, voltamos para casa como quem volta para a Idade das Trevas.

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