Criança não é produto, não é conteúdo, não é palco

Da FOLHA
Por NATALIA BEAUTY
O algoritmo não tem moral, ele entrega o que dá engajamento
O vídeo do youtuber Felca que viralizou, denunciando a adultização de crianças nas redes sociais, é o soco no estômago que muita gente precisava, e ainda assim, há quem finja não ver. Porque encarar o problema significa admitir que não é só sobre um influenciador, um caso ou um nome, mas sim um sistema inteiro que se alimenta da inocência, da vulnerabilidade e da ignorância de quem deveria proteger.
Criança não tem maturidade emocional, cognitiva ou neurológica para compreender as consequências da própria exposição. Isso não é minha opinião, é ciência. O cérebro humano só termina seu desenvolvimento por volta dos 25 anos. Antes disso, cada “dança sensual”, cada insinuação, cada like comprado com exposição sexualizada é uma ferida invisível que vai sangrar por décadas.
Diante disso, entra a pergunta que ninguém responde: onde estão os pais? Porque a responsabilidade começa dentro de casa. Quem autoriza, incentiva ou se omite diante da exploração da própria filha ou filho não pode alegar ingenuidade. Pior é que muitos transformam os filhos em fonte de renda e ainda se escondem atrás da desculpa de “consentimento”, como se uma criança pudesse consentir em abrir mão da própria infância.
A culpa seria ou é só da família ou as plataformas que permitem, monetizam e recomendam esse tipo de conteúdo também estão lucrando com a degradação da infância. O algoritmo não tem moral, ele entrega o que dá engajamento. Mas quem programa, aprova e mantém no ar, tem, e essa responsabilidade não pode ser terceirizada para a “opinião pública” ou para “o mercado”.
O Ministério Público e órgãos de proteção à criança precisam agir com a mesma velocidade e firmeza que têm para derrubar vídeos de direitos autorais. Estamos falando de um crime contra o desenvolvimento humano, contra a dignidade, contra o direito básico de crescer sem ser transformado em mercadoria. A omissão institucional é cumplicidade.
A sociedade também precisa parar de consumir esse tipo de conteúdo como se fosse entretenimento inocente. Porque cada visualização, cada compartilhamento e cada comentário “engraçadinho” é um tijolo a mais no muro da normalização. Somos todos responsáveis pelo que permitimos viralizar.
Adultizar crianças é roubar delas algo que não pode ser devolvido, entregar um corpo que ainda não entende o próprio peso para um mundo que só vê valor no que pode explorar, é assassinar a infância em troca de views, transformar pureza em produto e inocência em commodity.
Se você acha que isso é exagero, não se esqueça que toda vítima de abuso um dia foi uma criança que confiou nos adultos ao redor e toda vez que fechamos os olhos para essa exposição, estamos escolhendo o lado do agressor. Não existe neutralidade quando se trata de exploração infantil.
Infância não é palco, não é produto e definitivamente não é conteúdo. Infância é um direito e direito se protege, não se vende.
