Tarcísio lunático, Bolsonaro místico e Lula retranqueiro

Da FOLHA
Por ALVARO COSTA E SILVA
Com direita dividida e esquerda encalhada, cenário para 2026 continua imprevisível
Na receita publicitária, Tarcísio de Freitas é um político de perfil técnico e um bolsonarista moderado. Conhece as regras de etiqueta à mesa e maneja como ninguém o martelo de Thor da privatização. No entanto, sua declaração ao STF como testemunha no caso da trama golpista revela que a perspicácia não é seu forte. Ou que ele andava no mundo da lua em 2022.
Ao defender Bolsonaro, Tarcísio disse que o ex-presidente “respeitou o resultado da eleição” e que a posse de Lula “aconteceu em plena normalidade e respeito à democracia”, duas distorções da realidade que desmoralizam o currículo de um ex-militar modelo.
O governador só se lembra de, naqueles dias em que se elaborava dentro do Planalto o plano para prender e assassinar autoridades, encontrar o capitão com receio de que “a coisa desandasse”. Pois desandou.
Não foi uma prova de lealdade a Bolsonaro, cuja situação jurídica está complicada, foi um depoimento em causa própria. Tarcísio não tem segurança se vai ou não para a campanha presidencial, largando o quase certo, reeleição em São Paulo, pelo duvidoso. Meu palpite é que ele arriscará a tacada mais alta.
Bolsonaro confia na intervenção divina de Trump, do Google e da Meta e levará sua candidatura até o limite. Se não der, lançará alguém da família. De preferência Michelle, com poderes para tirar do caminho quem quer que seja: o demitido Fabio Wajngarten, advogado e marqueteiro do ex-presidente, já experimentou sua fúria. Eduardo, o filho 03 encarregado de atacar o Brasil nos EUA, sonha com a bênção do papai. Qualquer nome fora do arranjo caseiro – Tarcísio, Caiado, Zema, Ratinho Jr. – é logo xingado de “urubu” pelo pastor hidrófobo que financia e agita a seita bolsonarista.
Nem em seus melhores sonhos Lula esperava a direita tão dividida em 2026. O problema é o pesadelo atual. Para usar um lugar-comum da crônica esportiva, o governo só tem uma tática, a tal “postura reativa”, ou seja, é retranqueiro. Lento, sem força, desarticulado e pressionado pelo Congresso, não consegue atacar.
