Abin de Bolsonaro estava em quase todas, da rachadinha ao golpe

Da FOLHA
Por BRUNO BOGHOSSIAN
Arapongas de Ramagem atuaram para praticar ou acobertar principais crimes atribuídos ao grupo do ex-presidente
A Abin do governo Jair Bolsonaro tinha um guichê especial a serviço de quase todos os crimes atribuídos ao grupo do então presidente. Numa estrutura que não era nada “paralela”, servidores que davam expediente na agência ajudavam a turma a intimidar autoridades, fugir de investigações e atacar as eleições.
O trabalho de espionagem apareceu primeiro no varejo da delinquência política do governo. As apurações mostraram que um núcleo da Abin monitorava desafetos, como o então presidente da Câmara, Rodrigo Maia. Segundo o relatório da PF, a ordem neste caso partiu do chefe da agência, Alexandre Ramagem.
O mesmo departamento abastecia as chamadas milícias digitais, que atuavam para destratar a imprensa, pressionar o Congresso e constranger o STF, com o objetivo de tirá-los do caminho de Bolsonaro. Nunca é demais lembrar que Ramagem e seus auxiliares eram bancados com dinheiro público e controlavam um órgão de inteligência que deveria atuar a serviço do Estado.
Os arapongas não eram muito sofisticados. Às vezes, produziam provas contra si mesmos. A PF encontrou a gravação de uma reunião em que o presidente discute com auxiliares uma estratégia para blindar Flávio Bolsonaro nas investigações da “rachadinha”. O áudio, possivelmente registrado pelo próprio Ramagem, será usado no inquérito.
A investigação sugere também que os servidores alimentavam uma rede de informações falsas que interessavam a Bolsonaro. Eles abasteciam perfis que tentavam desestimular a vacinação contra a Covid e atacavam parlamentares responsáveis pela CPI que apurava a conduta do presidente na pandemia.
O guichê clandestino também trabalhou na tentativa de detonar as urnas eletrônicas para forçar a anulação das eleições e manter Bolsonaro no poder. Depois da derrota, segundo a PF, os arapongas ainda estimularam o fechamento de rodovias, como faísca para um golpe militar.
Na ficha dos espiões, só faltou dar uma força no caso das joias.
