A agonia americana

De O GLOBO

Por JOSÉ EDUARDO AGUALUSA

Trump nunca escondeu o fascínio por déspotas. Aliás, Trump não esconde nada. É, por natureza, cru e explícito como um filme pornô. E mente o tempo todo

A democracia americana conseguiu sobreviver ao primeiro mandato de Donald Trump — mas não saiu incólume.

A decisão da Suprema Corte, na segunda-feira passada, assegurando que o antigo presidente tem direito a receber imunidade parcial nos processos a que responde, pode ser vista como mais um sintoma da degradação da democracia e da Justiça nos EUA.

Sonia Sotomayor, juíza que votou contra a decisão, ao lado de outros dois colegas, não escondeu a revolta: “Em todos os usos do poder oficial, o presidente é agora um rei acima da lei. Ordena à Seal Team 6 da Marinha que assassine um rival político? Imune. Organiza um golpe militar para se manter no poder? Imune. Aceita um suborno em troca de um perdão? Imune. Imune, imune, imune!”

A decisão só foi possível graças à clara maioria de juízes conservadores, três dos quais nomeados por Donald Trump. Três outros juízes, nomeados pelos Bush, pai e filho, também votaram a favor da decisão. Dos restantes, dois foram nomeados por Obama, e apenas um por Joe Biden.

O ideólogo de Trump, Steve Bannon, preso esta semana por desacato ao Congresso, declarou, horas antes de se entregar às autoridades, que o “exército Maga”, só aceitará um resultado — a vitória de Trump. Segundo Bannon, no primeiro dia como presidente, Trump fechará as fronteiras. Em seguida, iniciará a deportação em massa de 10 a 15 milhões de “invasores estrangeiros ilegais”.

Donald Trump nunca escondeu o fascínio, até mesmo o apreço, por déspotas como Vladimir Putin ou Kim Jong-un. Aliás, Trump não esconde nada. É, por natureza, cru e explícito como um filme pornô. Mente o tempo todo, sim. Não mente, porém, como nós, as pessoas comuns, com o objetivo de ocultar uma determinada realidade. Muitas vezes nega o óbvio, inclusive quando tem o óbvio aos saltos, diante dos olhos, parecendo completamente alheio à eficácia da mentira. A verdade tem para ele a mesma importância que o vulgar cidadão dá aos neutrinos.

Mesmo os políticos mais experientes, mais adestrados nas técnicas da mentira, da calúnia, da elipse e do sofisma, não estavam preparados para enfrentar alguém como Trump, capaz de ignorar a realidade como quem afasta uma cortina, contrapondo, sem um pingo de vergonha, o seu próprio universo alternativo.

Trump não se preocupa em parecer democrata. Também não se preocupa em parecer honesto, ou culto, ou decente. É mau por natureza, e por preguiça. Também deve ser por preguiça que nem sequer esconde a maldade.

Pensando bem, sua única virtude é a preguiça.

É este homem que os americanos pretendem eleger, em novembro — asseguram as sondagens. Isto, a menos que o atual presidente, Joe Biden, num acesso de bom senso, de patriotismo e de amor pela democracia, decida afastar-se.

O declínio da democracia americana começou muito antes de Trump. O antigo (e talvez próximo) presidente americano não é a doença, apenas uma infeção oportunista, que aproveitou a fragilidade do organismo democrático para se afirmar. Contudo, como qualquer agente infeccioso, pode acabar matando o organismo onde se instalou.

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