A voz das mulheres fez Cuca compreender que é preciso se engajar na mudança

De O GLOBO
Por CARLOS EDUARDO MANSUR
Pronunciamento do treinador no domingo foi um raro momento em que alguém reconheceu que a sociedade, e o futebol em particular, têm um problema sério a lidar
Havia 32 mil pessoas na Arena da Baixada, palco do jogo entre Athletico e Londrina. E uma grande quantidade daquelas pessoas gritou o nome de Cuca, o treinador que estreava. O rubro-negro paranaense goleou e avançou de fase.
A cena é importante porque mostra o poder que o futebol atribui a certos personagens. Quando estão sob holofotes, as vitórias os transformam em ídolos sem defeitos. Os erros do passado arriscam correr para sob o tapete. O gol absolve, é capaz de polir biografias.
É por tudo isso que, durante anos, o que se cobrou de Cuca, e de tantos outros homens do futebol, foi algo além de uma versão sobre o episódio de Berna, em 1987. Claro que a sociedade merecia saber o que aconteceu, qual a participação de cada um dos envolvidos. No entanto, após tanto tempo em que se contornou o tema, o fundamental era um posicionamento, um diálogo aberto sobre violência de gênero, estupro, abusos, machismo e misoginia. Que uma mensagem educativa fosse transmitida através do futebol e que ações contundentes, desde a base, fossem adotadas num ambiente masculino, tóxico.
A real vítima do caso ocorrido na Suíça, então uma menina de 13 anos, morreu aos 28. Para ela não há reparação. Mas figuras que obtiveram fama e prestígio graças ao futebol têm influência, são ouvidas semanalmente por muita gente, inclusive jovens em formação. Cada posição que adotam é importante.
É justo argumentar que Cuca demorou. Mas como ele mesmo admitiu, o mundo do futebol, este universo masculino por excelência, permitiu que ele fizesse carreira, fama e dinheiro deixando o episódio de Berna esquecido. É justo, ainda, lamentar que o treinador não tenha abordado especificamente o caso de 1987, não tenha dito o que de fato viu ou fez, nem que fosse para alertar os jovens sobre a necessidade de, ao presenciar uma cena de abuso sexual, defender a mulher e relatar às autoridades. É natural, até mesmo, ponderar que a pressão da sociedade precipitou uma declaração que viabilizasse sua atuação no futebol brasileiro. Ainda assim, seria um sinal de que a exaustiva luta das mulheres promove alguma semente de transformação.
De todo modo, há um forte simbolismo no pronunciamento lido pelo treinador. Foi o momento, provavelmente inédito, em que um personagem de alta relevância do futebol, no ambiente de um jogo e sob o impacto de uma vitória no campo, falou mais clara e longamente sobre violência contra a mulher. , e que o ponto de partida é uma predisposição dos homens a se reeducar. Se o futebol entender que já não é mais possível contornar, driblar o assunto, teremos dado um passo.
Cuca admitiu que a sociedade e o futebol, universos dominados pelo machismo, permitiram que ele se recolhesse durante anos. É cedo para dizer que o jogo virou, mas a voz das mulheres fez um personagem do futebol compreender que é preciso se engajar na mudança. Será ótimo se outros o fizerem.
Homens que viveram muitas décadas no futebol são produtos do meio. Jamais imaginaram que, um dia, precisariam abordar tais temas. Recentemente, ao se retratar sobre seu posicionamento no caso Daniel Alves, Tite também reconheceu erros. Assim como Cuca, escolheu ler algumas palavras. Provavelmente o fez pela sensibilidade do tema, mas também porque nenhum deles fora preparado para falar publicamente sobre algo tão delicado na sociedade brasileira. Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, a cada oito minutos uma mulher ou criança foi estuprada no país no primeiro semestre de 2023.
O futebol é uma potente ferramenta transformadora. Ainda mais se seus principais personagens se engajarem na luta.
