O sopão bolsonarista

De O GLOBO
Por MIGUEL DE ALMEIDA
Vladimir Herzog, jornalista e também dramaturgo, em menos de 24 horas foi torturado e morto
Quase 50 anos nos separam da manifestação (com nossos recursos) em apoio ao golpista Bolsonaro e a missa em memória de Vladimir Herzog (1937-1975). Celebrada na Catedral da Sé, em São Paulo, em protesto pelo assassinato do jornalista nos porões do DOI-Codi, um centro de tortura, ela marca o início da queda da ditadura militar. Milhares de pessoas, dentro e fora da igreja, vigiadas pelos arapongas de sempre, com ostensivas viaturas policiais no entorno, protestaram contra o arbítrio do regime.
Trata-se de momento seminal e fundador na História brasileira, visto como o dia em que foi deixado de lado o medo de enfrentar as forças da repressão. Até então, dezenas de adversários da ditadura haviam sido mortos, torturados ou “desaparecidos” — e as reações ainda não tinham alcançado dimensão pública. Com a censura imposta à imprensa, poucas informações alcançavam a população. Celebrada em ato ecumênico, trazia no altar o rabino Henry Sobel, o pastor presbiteriano Jaime Wright e o arcebispo de São Paulo, Dom Paulo Evaristo Arns. Como diz no documentário “Coragem”, de Ricardo Carvalho, disponível no YouTube, o cardeal Arns resumiu a intenção da luta que ganhava as ruas:
— Os militares não mandam na nossa liberdade.
Dom Paulo, arcebispo paulistano por quase três décadas, frade franciscano, irmão da notável Zilda Arns, tornou-se um símbolo contra a ditadura. Sua liderança e carisma mostraram à classe média — não podemos esquecer: parte dela tinha clamado pelo golpe contra João Goulart — o engodo do regime militar. Matavam seus filhos sem dó.
Levado para “prestar esclarecimentos”, Vladimir Herzog, jornalista e também dramaturgo, em menos de 24 horas foi torturado e morto. Uma foto grosseiramente montada pelos algozes o exibia pendurado nas grades da janela da cela, alegando suicídio. O DOI-Codi, centro de repressão dos militares, onde morreram cerca de 70 adversários do regime, tinha à frente o major Carlos Brilhante Ustra. Identificado como torturador por diversas de suas vítimas (as que tiveram a sorte de sobreviver), morreu em 2015 idolatrado publicamente por Bolsonaro.
A memória do ato celebrado pelos três religiosos, quando corriam risco de ser presos e torturados, como já acontecera com vários outros padres e sacerdotes, diante da manifestação bolsonarista na Avenida Paulista, escancara como a fé é manipulada por alguns pastores evangélicos. Ancorados na isenção de impostos, na pessoa física e jurídica, portanto com nosso dinheiro, ajudaram a patrocinar ato em defesa de um golpista ameaçado de prisão. Com o dízimo ofertado a Deus, busca-se cavar na Terra os grilhões do inferno.
