A nova liga e as velhas práticas

De O GLOBO

Por RODRIGO CAPELO

Algum clube trocará de bloco? Se alguém mudar de lado, seja da Libra ou do Forte, esses movimentos podem decidir a disputa

Depois de alguns meses sem desdobramentos substantivos, a novela da liga de clubes esquentou de novo. O fundo árabe Mubadala fez nova e agressiva oferta aos dirigentes da Libra e tenta convencer membros do Forte Futebol a trocarem de lado. Assessores deste outro grupo moveram peças para desestimularem a saída. Numa disputa que se resolverá na força, em vez da conciliação, ainda não dá para prever quem a vencerá. Só fica claro que, apesar dos rostos novos, as práticas são as de sempre.

Para que o seu grupo não desmobilize, os intermediários que representam o Forte Futebol acharam um trunfo na antecipação de verbas. Eles dizem que o fundo americano Serengeti ainda não pode investir no Brasil, porque há trâmites burocráticos um tanto alongados para estrangeiros, que incluem autorização do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), então a XP assumiu a responsabilidade de tirar do caixa dela a grana necessária para viabilizar o adiantamento.

O que diferencia essa operação da antecipação convencional de receitas, com um banco qualquer? Quase nada. Para que a XP libere o dinheiro, os clubes do Forte entregarão direitos de transmissão futuros em garantia, como fariam com qualquer instituição financeira. A diferença neste caso é que existe uma condição peculiar: só haverá adiantamento se o contrato com a Serengeti for assinado. De resto, são clubes entregando o futuro para faturar no presente. Como sempre se fez no futebol.

Do outro lado do muro, aliás, na Libra, propõe-se a mesma coisa. Em reuniões recentes com os cartolas que compõem este bloco, o BTG acenou com a mesmíssima possibilidade. Seus executivos disseram que têm uma linha de crédito em valor próximo a R$ 500 milhões, para que clubes possam antecipar recebíveis — leia-se: pegar dinheiro agora, mediante juros e entrega de receitas futuras em garantia, obviamente com a condição de que o privilégio só existe se assinarem tudo com Mubadala.

Nem dá para culpar intermediários. Eles sabem com quem estão lidando. Dirigentes negociam contratos de 50 anos ou cinco meses baseados no dinheiro que receberão, e nada mais. Em justiça a esses mesmos cartolas, também faz bem vestir seus calçados por um instante. Do que eles estão sendo cobrados —por torcedores, conselheiros e opinadores? Resultado. Não no longo prazo, não até o fim da temporada; já! Tem salário para pagar, reforço para contratar, e tudo isto custa dinheiro.

Do jeito que as coisas vão, a fundação da liga depende das seguintes questões. Primeira: algum clube trocará de bloco? Se alguém mudar de lado, seja da Libra ou do Forte, esses movimentos podem decidir a disputa. Segunda: algum investidor desistirá? Se Mubadala ou Serengeti amarelarem diante da composição final de clubes lá e cá, o jogo acaba para alguém. O processo será ruidoso e violento porque, além de tudo, intermediários de parte a parte dependem disso para receber suas comissões.

Se nenhum clube trocar de grupo, e se nenhum investidor desistir, nosso futebol passará a ter dois blocos comerciais para a venda dos respectivos direitos de transmissão. Mais uma jabuticaba. Nesta hipótese, sejamos realistas: não haverá liga alguma. Sem que todos os dirigentes sentem à mesma mesa para organizar o Campeonato Brasileiro, a CBF continuará a mandar nele. Não avançaremos como devíamos em nenhuma das pautas realmente importantes — fair play financeiro, calendário, internacionalização. E as operações financeiras serão, bem ou mal, meras antecipações de verbas.

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