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Blog do Paulinho

Bolsonaro pode dar golpe e continuar afirmando que não deu golpe nenhum

Da FOLHA

Por MARCELO COELHO

Resta saber se o brasileiro vai se conformar com a ameaça da arma no balcão

A cena é comum nos filmes de gângster. O capanga entra num restaurante, numa tinturaria, num chaveiro, e põe o revólver em cima do balcão.

“Há muito assalto aqui no bairro”, diz ele. “E, se eu fosse o senhor, cuidaria de se proteger melhor.” Exige uma taxa de 10% dos lucros do comerciante. “E se eu não pagar?”, pergunta o tintureiro.

“Coisas muito ruins podem acontecer com a sua família”, responde o bandido. E o importante vem depois: “Não estou ameaçando o senhor. De jeito nenhum. Mas pensaria bem antes de recusar a nossa oferta”.

O fascista, seja qual o seu subgrupo ou sua nacionalidade, funciona exatamente como o gângster. “Não estou ameaçando.” “Sou um cidadão de bem.” “Sou um grande defensor do sistema democrático.”

Faz as últimas, mas não chega ao ponto de dizer algo que realmente o incrimine. Veja-se o caso de Donald Trump.

Ele atiçou ao máximo o grupo de fanáticos e bobalhões que terminou invadindo o Capitólio depois de ele perder as eleições presidenciais.

Investigou-se o caso no Congresso. Ficou evidente que ele nada fez para dissuadir seus seguidores; ficou assistindo pela televisão ao bando de cretinos a seu serviço. Foi inspirador, beneficiário e cúmplice do mais sério (e mais ridículo) ataque às instituições democráticas americanas em toda a história.

Só que, juridicamente, ele sempre poderá argumentar que não mandou ninguém invadir o Capitólio. Seu discurso evitou a frase precisa que poderia incriminá-lo.

“Estamos indo para o Capitólio”; vocês têm de “lutar como loucos” (“fight like hell”); vamos “parar com esse roubo”. Trump pode argumentar que estava apenas defendendo um protesto enfático.

Não disse para ninguém invadir lugar nenhum.

Mas é claro que não precisava. É como o gângster, que “não está ameaçando ninguém”. Com uma arma em cima do balcão, suas palavras não são apenas palavras —são palavras num contexto de poder.

É este, evidentemente, o jogo de Bolsonaro e seus bandidos armados.

Um candidato de oposição no Rio de Janeiro organiza uma caminhada pelo bairro da Tijuca. A certa altura, um grupo de valentões bolsonaristas se exibe com armas na cintura, avança e avisa que ali não é lugar para caminhadas. Há relatos de bandeiras rasgadas e empurrões.

O chefe do bando afirma que estava ali pacificamente; o local era apenas um ponto de encontro para quem iria participar de um evento do PTB ali perto.

É assim que, desde Mussolini e Hitler, se instaura um clima de medo e ameaça. O fascista não precisa dizer o de que é capaz. Todo mundo sabe.

Em escala nacional, Bolsonaro repete a tática. Diz que não vai dar golpe —mas que o resultado das eleições será inválido se não houver voto impresso. Diz que é democrata —mas não faz outra coisa além de elogiar a ditadura militar.

Os militares estão prontos a seguir a Constituição —mas a interpretam como bem entendem.

Ele pode dar um golpe e continuar dizendo que não deu golpe nenhum. Já se fez praticamente isso no impeachment de Dilma Rousseff.

Mas a coisa é ainda pior: quando os tanques saíram dos quartéis em 1964, e João Goulart saiu de Brasília, o Congresso teve de aceitar o fato consumado, com ajuda dos presidentes da Câmara e do Senado.

Na cabeça de Bolsonaro, tampouco isso foi um “golpe”: afinal, o ato militar teve a bênção do Congresso, que logo tratou de “eleger democraticamente” seu primeiro general.

Se nem 1964 representou um “golpe”, qualquer coisa que tivermos pela frente deixará de ser classificada como “golpe” também. E sempre haverá observadores preciosistas e “imparciais” prontos a dizer que o que foi não foi.

Com militares, policiais, jagunços, fanáticos e alucinados a seu lado, o presidente Bolsonaro se comporta como o gângster do filme, mostrando a arma em cima do balcão.

“Não estou ameaçando ninguém”; mas é claro que está.

Mesmo sabendo disso, o dono da tinturaria prefere ficar confuso. “O cara até que foi simpático… Melhor ficar do lado dele.” Afinal, o tintureiro está sozinho. No morro, ninguém é louco de falar em respeito à lei e às garantias constitucionais.

Resta saber se cada cidadão brasileiro se sente sozinho frente à chantagem e vai se conformar com a arma no balcão.

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