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O malandro e o otário: Datena enrola Bolsonaro e desiste de outra eleição

De O GLOBO

Por BERNARDO MELLO FRANCO

Palanque eletrônico

Todo dia, um malandro e um otário saem de casa. Quando eles se encontram, sai negócio. Na sabedoria popular, é comum que um político assuma o lugar do malandro. Mas os papéis podem se inverter: basta que ele cruze com o apresentador José Luiz Datena.

Há dez anos, o âncora do Brasil Urgente ameaça disputar algum cargo público. Há dez anos, ele anuncia que mudou de ideia, fazendo de trouxas todos os políticos que o cortejaram.

A lenga-lenga começou em 2012, quando o apresentador ensaiou concorrer à Prefeitura de São Paulo. “Às vezes, tenho vontade de me candidatar para corrigir as coisas de dentro”, declarou. A frase deflagrou uma guerra entre partidos interessados em filiá-lo.

Meses depois, Datena anunciou que continuaria na TV. E ainda ironizou as celebridades que trocam o estúdio pelo palanque: “O fato de o cara ter popularidade não vai necessariamente significar que ele é um bom administrador ou que tenha credibilidade”.

Em 2016, o apresentador ensaiou disputar a prefeitura pelo PP. Logo depois, fez pose de indignado e encenou outro recuo. “Não posso permanecer num partido que tomou mais de R$ 300 milhões da Petrobras”, disparou. Faltou dizer que o PP já abrigava o doutor Paulo Maluf quando ele assinou a ficha de filiação.

Na eleição seguinte, Datena se lançou pré-candidato ao Senado pelo DEM, em evento com figurões como Rodrigo Maia e João Doria. Chegou a liderar as pesquisas, mas deu outro olé nos políticos e renovou o contrato com a Band.

Em 2020, o apresentador se filiou ao MDB para concorrer a vice-prefeito na chapa de Bruno Covas. Esticou a negociação até a data-limite, quando reapareceu na TV e fez mais uma promessa furada: “Na próxima eleição, vou deixar a televisão e vou me candidatar”. É incrível, mas muita gente acreditou.

Nos últimos meses, políticos da esquerda, da direita e do centro disputaram o passe de Datena. Ciro Gomes ofereceu a vaga de vice em sua chapa presidencial. Rodrigo Garcia prometeu apoio na corrida ao Senado. O apresentador enrolou os dois e fechou negócio com Jair Bolsonaro.

Ontem coube ao capitão assumir o papel de otário. De manhã, ele anunciou que havia escolhido seu candidato ao Senado: “Fechei com o Datena”. À tarde, o apresentador disse que “pensou bem” e decidiu permanecer na telinha. “A política não é meu espaço natural”, justificou. Em 2024, a novela deve continuar.


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