Algazarra golpista

EDITORIAL DA FOLHA
Entidades devem lembrar Bolsonaro de que não há margem para aventura autoritária
Não deve haver dúvidas sobre as inclinações autoritárias do presidente Jair Bolsonaro (PL). Exibiu-as ao longo dos sete mandatos como deputado federal e não tem feito questão de reprimi-las em mais de três anos no Palácio do Planalto.
Se a ruptura do regime democrático dependesse tão somente da sua vontade, o Brasil correria riscos ponderáveis de recair na ditadura —e pelo método embrutecido e antiquado da quartelada.
Felizmente a institucionalidade nacional e o contexto internacional interpuseram uma série de obstáculos robustos entre as pulsões tirânicas, de um lado, e a realidade política, do outro. Contorná-los não será tarefa fácil para ninguém.
Bolsonaro experimentou ele mesmo a concretude do rochedo democrático quando foi obrigado a recuar da intentona subversiva do Dia da Independência, no ano passado. Reforçou a partir de então a sua aliança com o statu quo parlamentar na tentativa de elevar as suas chances de reeleger-se.
O presidente logrou desse modo reverter uma parcela da impopularidade e melhorar seu desempenho nas pesquisas de intenção de voto, mas ainda não a ponto de tornar-se o favorito. O horizonte da economia turvou-se pela inflação, o que costuma dificultar a reeleição de qualquer governante.
Novamente acossado pelo espectro do fracasso, Jair Bolsonaro recobrou a algazarra golpista. Instrumentaliza militares em investidas contra a Justiça Eleitoral e insufla as audiências por onde passa com ameaças difusas de tumultos e revoltas no segundo semestre.
Nesta segunda (16), o chefe de governo repetiu as bravatas no seu estilo, aos berros e empregando termos chulos, num evento de supermercadistas na capital paulista. As eleições, vociferou, poderão ser conturbadas se não forem limpas.
Em enquete proposta pela Folha, partidos de oposição e independentes afirmaram haver risco de Bolsonaro tentar um golpe contra o processo eleitoral. Autoridades e entidades tradicionais da sociedade civil preferiram o silêncio diante das indagações da reportagem.
A campanha presidencial ter começado de fato —de direito, apenas em agosto— talvez explique a cautela adotada por representantes de organizações apartidárias e dos Poderes de Estado. Neste pleito, no entanto, será preciso discernir com nitidez situações de ataque ao regime que virão do presidente da República para reagir a elas.
Lembrar, em atos e palavras, ao mandatário nostálgico de ditadores e torturadores que não há margem para aventuras autoritárias no Brasil do século 21 integra o conjunto de obstáculos à tirania que tornará inexorável, em caso de derrota nas urnas, a posse de seu sucessor em 1º de janeiro de 2023.
