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Guerra na Ucrânia mostra os custos de se fazer um jornalismo independente

Da FOLHA

Por MAURICIO STYCER

Além de astúcia e coragem, repórteres dependem de estruturas caras para trabalhar com segurança e autonomia

Quando a Rússia invadiu a Ucrânia, na quinta-feira da semana passada, a CNN americana contava com seis correspondentes e três âncoras no país atacado. Em uma entrevista, o chefe da CNN Internacional, Mike McCarthy, disse que a rede tinha 75 pessoas na Ucrânia, incluindo motoristas e intérpretes locais.

Segundo o New York Times, a rede de TV está usando a cidade de Lviv, no oeste da Ucrânia, como base, entre outros motivos, para garantir que as transmissões não sejam interrompidas por ataques cibernéticos que possam afetar Kiev. Segundo McCarthy, a CNN tem “seis ou sete” sistemas de comunicação de reserva caso algum falhe.

Logo no primeiro dia da invasão, um dos profissionais do canal, Matthew Chance, apareceu ao vivo mostrando imagens de soldados russos perto de um aeroporto nos arredores de Kiev. Agachado, usando colete a prova de balas, o jornalista disse: “Falei com o comandante e ele disse que controlam este aeroporto”.

Ainda em 24 de fevereiro, espectadores viram imagens de tanques avançando e ouviram o barulho de bombas explodindo ou zunindo no céu, além de fumaça ao fundo. Tudo narrado por jornalistas naturalmente agitados, num tom que mistura susto, medo e adrenalina.

É guerra ao vivo, um tipo de programa que a CNN firmou a reputação de fazer como ninguém. O marco foi a decisão de Peter Arnett de permanecer em Bagdá, em 1991, durante a Guerra do Golfo, contrariando a orientação do governo americano para que todos os jornalistas deixassem a cidade. Acabou sendo o único profissional a registrar a cidade bombardeada e entrou para a história.

Astúcia e coragem são sempre citadas como qualidades essenciais ao trabalho dos correspondentes de guerra. Mas não bastam. Sem o apoio de uma estrutura altamente dispendiosa por trás, fica cada vez mais difícil exercer esse ofício com um mínimo de segurança e independência.

Para efeito de comparação, a franquia brasileira da CNN enviou à Ucrânia o jornalista Mathias Brotero, que atua como videorrepórter. Ou seja, ele faz a reportagem, capta as próprias imagens e transmite o material para a empresa. Ao final do segundo dia da invasão, o profissional deixou Kiev rumo à Polônia. “A situação de segurança em Kiev ficou complicada com a invasão do Exército russo”, disse Brotero no vídeo que gravou dentro do trem.

A opção pelo videorrepórter, além de menos custosa, pode eventualmente ser uma forma mais eficiente de trabalhar em situações muito críticas, como uma guerra. Enviando reportagens da Ucrânia para a Band, Yan Boechat, um experiente jornalista que se especializou em coberturas de conflitos, também atua assim.

Mas, assim como outros colegas, Boechat se viu obrigado a deixar a capital da Ucrânia na manhã de terça-feira. “Situação em Kiev se deteriorou nas últimas horas. Estamos sem conseguir dinheiro, pouca gasolina e poucos recursos. Decidimos recuar em direção a Lviv enquanto ainda é possível”, informou em seu perfil no Twitter.

No momento em que escrevo esta coluna, nenhum veículo brasileiro conta com jornalistas em Kiev (por conta própria, o fotógrafo Gabriel Chaim tem enviado imagens e relatos para a Globo). É uma situação que reduz a capacidade da mídia de oferecer um olhar próprio, independente, da situação.

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