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Denúncia de assédio de Rogério Caboclo aprofunda crise ética no futebol

Da FOLHA

Por JUCA KFOURI

Como machismo e racismo, corrupção no esporte das massas também é estrutural

Primeiramente a repórter destruiu o cartola; agora foi a vez de cerimonialista.

A repórter Daniela Pinheiro, em julho de 2011, na revista piauí, começou a pôr fim ao longo reinado de mais de duas décadas de Ricardo Teixeira ao traçar seu perfil e, apenas com aspas dele, enforcá-lo com as próprias palavras.

Ali, depois de dezenas de denúncias sobre seus malfeitos na direção da CBF, o cartola revelou por inteiro a sua pequenez e arrogância, ao se achar o homem mais poderoso do país. Fez ameaças, falou palavrões e caiu feito pato laqueado em todas as armadilhas bem colocadas pela extraordinária jornalista.

Não demorou muito e teve de renunciar a tudo: ao posto de chefe do Comitê Organizador da Copa do Mundo, ao cargo que tinha no comitê executivo da FIFA e, enfim, à presidência da Casa Bandida do Futebol.

Sucedido por dois outros cartolas da mesma estirpe, ambos se afogaram em lavagem de dinheiro. Que teimam em negar apesar de José Maria Marin ter passado cerca de cinco anos enjaulado entre a Suíça e os Estados Unidos, solto graças à pandemia, e o Marco Polo que não viaja… não pode viajar. Porque a Interpol quer conversar com ele e se o sobrenome Del Nero aparecer em computador na fronteira parece que acende luz vermelha, toca sirene, alguma coisa assim.

Mas Del Nero ainda fez o sucessor porque a corrupção no futebol brasileiro é estrutural, como o racismo e o machismo.

E eis que o sucessor, Rogério Caboclo, medíocre, embriagado pelo poder, e não só pelo poder, também achou, como Teixeira, que tudo podia —e passou de qualquer limite aceitável ao assediar funcionária do cerimonial da CBF.

Nojenta como a corrupção é a covardia.

A covardia de chefe com mulher subordinada é asquerosa e a tentativa de negar diante de gravações, e de esforços desesperados para calar a vítima, revelados, deveriam provocar apenas uma atitude do assediador, se vivesse no Japão de antigamente: harakiri.

Daí que, pela primeira vez na história da seleção brasileira, um jogo pelas eliminatórias da Copa do Mundo ficou em plano terciário porque o secundário virou a Cova América no país.

A seleção fez primeiro tempo fraco, melhorou no segundo, mereceu o 2 a 0 sobre o recuado Equador, mas nada disso tem a menor importância.

Porque a crise aberta pelo possível, e correto, boicote dos jogadores à Cova América revela o caráter de quem quer fazê-la a qualquer custo e quem a apoia: o governo do genocida, que um dia disse que não estupraria uma deputada porque a achava feia, fez tabelinha com o cartola assediador para trazer o torneio recusado pela Argentina por causa da pandemia.

Trata-se do reino do escárnio, dos ogros, dos monstros que atentam contra o processo civilizatório, dos que se consideram impunes a ponto de Neymar cobrir a marca de patrocinador da seleção e ficar por isso mesmo —ou o Exército se acoelhar diante de justificativa patética do general Eduardo Pazuello.

Ainda há quem ache que esporte e política não se misturam, quando são óbvias faces da mesma moeda, no caso, podre.

Impossível pensar que a crise ética vivida pelo Brasil não contamina tudo, embora, verdade seja dita, os bastidores do futebol jamais tenham dado bons exemplos ao país, com exceção do processo que culminou com a linda seleção brasileira que disputou a Copa do Mundo de 1982, na Espanha.

Eram tempos de Giulite Coutinho e Sócrates, não os de Rogério Caboclo e Neymar.

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