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Vai ter Copa, mas seria melhor, no Qatar, não ter

Copa do Catar: a aberração movida por ganância e sofrimento | Colunas  semanais da DW Brasil | DW | 30.03.2021

Da FOLHA

Por JUCA KFOURI

Maus-tratos aos trabalhadores no país não surpreendem, mas sim o número de mortos

Segundo o respeitado diário inglês The Guardian nada menos que 6.500 trabalhadores imigrantes morreram no Qatar desde que se anunciou o país como sede da Copa do Mundo de 2022.

A rara leitora e o raro leitor talvez se lembrem de terem lido aqui sobre a possibilidade de a Copa qatari não ser realizada devido ao processo corrupto da escolha, mas a promessa de limpeza da Fifa era brincadeira e o risco acabou afastado porque o dinheiro falou mais alto.

Trabalhadores morrerem em obras de grande porte fazem parte do dia a dia, mais em alguns países, menos em outros.

Por exemplo: nas obras para dez estádios na África do Sul, sede da Copa de 2010, morreram dois operários; nos 12 brasileiros morreram dez, cinco vezes mais, dois apenas em Itaquera; nos 12 da Rússia, 21, e no Qatar, com sete estádios, as autoridades admitem 37 óbitos.

Como até uma cidade nova está sendo erguida no país o número assombroso de acidentes se deve a todas as obras.

Daí, com atraso, o mundo do futebol ter começado a protestar contra as condições de trabalho e aproveitado o início das eliminatórias europeias para se manifestar.

Jogadores alemães, austríacos, dinamarqueses, holandeses, irlandeses e noruegueses já deram seus recados e a onda deve crescer, embora seja improvável que os brasileiros adiram –ainda mais porque o dono do PSG de Neymar é quem é, o poderoso qatari Nasser Al-Khelaifi, dono de mais dinheiro até do que das inúmeras acusações de corrupção.

Antes tarde do que nunca, como deixou claro o “Mea-culpa” da dramaturga e advogada Becky Korich nesta Folha em Tendências/Debates de 2/4, em que pede perdão por seu voto no inominável em 2018. Bem-vindos os arrependidos!

A acolhida da maioria do leitorado revelada no “Painel do Leitor” demonstra que desculpar o erro é o caminho para quem deseja uma saída aos que se equivocaram, sem o que, acuados, lhes restará repetir o voto em 2022.

Repita-se: por uma frente ampla, tão ampla até doer, para evitar o processo de fascistização do Brasil.

Voltemos à Copa prevista para começar em 21 de novembro do ano que vem, quando esperamos já termos comemorado a derrota definitiva do genocida.

O ideal seria mesmo não ter Copa no Qatar, mas, convenhamos, por mais opções que haja para transferi-la é improbabilíssimo.

O governo do país árabe nega os números, como previsível, embora entre os dados oficiais e os de entidades internacionais de proteção ao trabalho só fica com os primeiros quem defende o futebol acima de tudo, o negacionismo acima de todos.

É como crer nos números da pesquisa da CBF sobre os efeitos da pandemia no futebol brasileiro, comandada pelo diretor da área médica da entidade, o doutor Jorge Pagura, o ex-secretário de Esportes de São Paulo que teve de se demitir por receber de hospital público sem comparecer ao trabalho, em vez de confiar nos dados da Fapesp, tema aqui tratado neste domingo (4).

Vai ter Copa, mas seria melhor, no Qatar, não ter.

A Fifa fechará lá um ciclo de quatro Copas do Mundo com o traço comum de terem sido realizadas em países de pouco controle social, muita corrupção e, nos casos da África do Sul e do Brasil, de democracias recentes, o que não é bem o caso da Rússia e, muito menos, do Qatar.

A diferença entre os cartolas da Fifa João Havelange, Joseph Blatter e Gianni Infantino se resume aos berços. A ganância dos bolsos é a mesma.

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