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Mais uma vez, a cloroquina

Ilustração Carvall Ombudsman publicado no dia 28 de fevereiro de 2021

Da OMBUDSMAN DA FOLHA

Por FLAVIA LIMA

É desanimador combater desinformação na página par e disseminá-la na ímpar

“Há dois lugares onde o dito ‘tratamento precoce’ contra a Covid-19 ainda tem espaço: na mente dos defensores da cloroquina e na edição impressa de hoje da Folha“, escreveu um leitor na terça (23), a respeito de um anúncio publicado na página A5 do caderno de Poder.

O informe publicitário “Manifesto pela vida” tomou meia página da Folha e de pelo menos outros sete jornais.

Nele, um grupo autointitulado Médicos pela Vida defende o chamado “tratamento precoce”, nome fantasia dado ao uso de medicamentos sem comprovação científica ou de ineficácia cientificamente comprovada contra a Covid-19.

Na véspera de o país atingir a marca de 250 mil mortos pela Covid-19, é surreal que um grupo de médicos diga que cidades que adotaram as “medidas para intervenção precoce” têm mostrado bons resultados.

O que dizer da decisão do jornal de publicar o manifesto?

No jornalismo profissional, a independência econômica é condição essencial para a liberdade de informar. Em nome da integridade da informação, a busca pela autonomia se dá sob um princípio claro, o da separação entre conteúdo editorial e comercial: repórter não vende anúncio, assim como contato comercial não interfere na reportagem.

Além disso, os conteúdos publicitário e noticioso têm características diferentes para que o leitor não se confunda.

Mas vale qualquer coisa na publicidade? Sobre o assunto, o diretor comercial da Folha, Marcelo Benez, diz que o jornal defende a “liberdade de expressão comercial”, segundo a qual todos que têm uma mensagem a ser divulgada têm o direito de fazê-lo, desde que ela não viole a lei.

“O anúncio em questão pode estar errado do ponto de vista científico, mas não quebra nenhuma lei”. O jornal, afirma Benez, respeita rigorosamente a separação entre Redação e Publicidade, garantindo independência às áreas.

Essa relação a que se refere Benez —no jargão jornalístico, a separação entre Igreja e Estado —garante que a notícia será publicada mesmo que afete os interesses dos anunciantes.

Mas e quando o anúncio prejudica a imagem da Redação?

Não é razoável esperar que o jornal confirme a veracidade de todo anúncio que publica —mandamento que rege a notícia. Isso porque a publicidade lida também com a fantasia.

O departamento comercial, contudo, pode dizer não.

De fato, não é ilegal publicar um anúncio como esse, mas pode ser antiético e contraproducente, uma vez que abala a confiança que o leitor deposita no trabalho da Redação. Como lembrou uma leitora, o mesmo jornal que publicou o anúncio faz parte do consórcio de imprensa que atua justamente para desmentir esse tipo de (des)informação.

Além do mais, ter um conteúdo como esse publicado em alguns dos maiores jornais do país confere ao texto uma credibilidade que ele não tem.

A publicação do anúncio pelos jornais foi destacada pelo grupo Médicos pela Vida em seu site, acompanhada de artigo assinado por um procurador do Rio de Janeiro que não trata de pandemia, mas de liberdade de expressão.

“Não é espantoso que inúmeras pessoas tenham tido suas postagens removidas de redes sociais, ou recebido advertências das redes, por defenderem opinião sobre tratamento médico compartilhada por milhares de profissionais da medicina?”, pergunta o procurador.

Espantoso é que a politização da crise sanitária siga forte e que a Folha volte a importá-la para suas páginas, dessa vez em forma de anúncio.

Segundo Marcelo Träsel, presidente da Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo), é comum que o espaço comercial contradiga o noticiário, mas o informe apareceu no momento mais agudo de uma pandemia na qual os jornalistas têm atuado na linha de frente.

“A publicação do anúncio foi percebida como um sinal de irresponsabilidade e falta de sensibilidade por parte dos gestores. Pode ser um golpe duro no moral das Redações”, diz.

Na quarta (24), a Folha publicou uma reportagem melancólica e sem novidades, acompanhada por mais um amplo —e constrangedor, a essa altura —exercício de checagem.

Segundo a Agência Lupa, desde o início da pandemia, 219 checagens foram publicadas sobre tratamento precoce por cinco iniciativas: Lupa, Comprova, Estadão Verifica, Aos Fatos e Boatos.org. A própria Folha publicou inúmeras reportagens sobre os riscos envolvendo o chamado “tratamento precoce”, além de textos sobre a própria associação —o primeiro deles em maio de 2020.

É desanimador, como disse uma leitora, combater desinformação na página par e disseminá-la na ímpar.

No jornalismo, a divisão entre “Igreja e Estado” é condição essencial para a liberdade de informar, mas critérios editoriais devem guiar as duas áreas. Do contrário, a credibilidade do jornal pode ser atingida, colocando em risco o próprio negócio. O anúncio existe para viabilizar o jornal, e não o contrário.

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