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Demba Ba despersonalizou gesto racista e fez dele um símbolo

Da FOLHA

Por JUCA KFOURI

Interrupção de jogo da Champions estabeleceu jurisprudência para repudiar o racismo

“A atitude de Demba Ba é exemplar e grandiosa, não só pelo posicionamento claro e imediato, ou pelo didatismo com que explica o racismo do gesto para o quarto árbitro e para milhões de pessoas, mas também porque ajuda a proteger a dignidade humana do próprio agressor.

Não sabemos se aquele senhor é um fascista escroto ou apenas mais um que reproduz irrefletidamente o racismo estrutural que vivemos. E isso importa menos. A atitude de Demba Ba ajudou a despersonalizar aquele gesto racista e a fazer do gesto um símbolo, uma catarse.

Demba Ba foi calmo, lúcido, respeitoso, senhor de si e do seu tempo, de uma altivez e grandeza sem tamanho.”

Bacharel em Esporte pela USP, e especialista em saúde pública, Thiago Érick de Sá observou com rara felicidade o significado da atitude do jogador senegalês do Istanbul Basaksehir ao interpelar o árbitro romeno Sebastian Coltescu no jogo com o PSG que entrou para a história.

A indignação dos justos ali demonstrada, em solidariedade ao assistente técnico camaronês Pierre Webó, ultrapassa os limites do que poderia ser mais um necessário gesto de denúncia ao horror do racismo.

Demba Ba, a quem o jornalista Luis Augusto Simon, o Menon, quer dar o Prêmio Nobel da Paz, mostrou ao mundo que a frase “aquele preto ali” poderia ter sido dita por qualquer um, ou melhor, não poderia ter sido dita por ninguém, mas está presente no inconsciente dos que não se veem racistas, embora não se preocupem em ser antirracistas.

Porque o racismo estrutural é algo tão arraigado que passa como natural.

Como ensinou o antropólogo francês Claude Levi-Strauss, quanto mais inconsciente um fenômeno, mais estruturado é. O tabu do incesto, por exemplo, difere entre as sociedades e está presente em todas elas.

De fato, importa menos saber que tipo de homem o árbitro romeno é. Importa revelar o que o comportamento dele revela.

Tão marcante a reação de Demba Ba a ponto de levar Neymar a ter o estalo que, tomara, o torne, enfim, maduro. O craque brasileiro não titubeou: “Não vamos jogar”, disse ao apitador principal.

E não venham com a cantilena sobre o seu passado quando ele disse isso ou aquilo.

Ao interromperem o jogo da Liga dos Campeões no Parque dos Príncipes, em Paris, os plebeus estabeleceram a jurisprudência para repudiar futuras ofensas raciais: abandonar o gramado, não tem mais jogo.

A rebelião da NBA chegou ao futebol em grande estilo e complicou a imagem do treinador português Jorge Jesus, cujo melhor perfil Mathias Alencastro publicou nesta Folha em outubro de 2019.

“Um dos últimos representantes do Portugal rude e arcaico”, como descreveu Alencastro, capaz de beijar o negro Vitinho em jogo do Flamengo, saiu-se com um “está muito na moda isso do racismo”, como a minimizar o que desde sempre não permite contemplação.

Tampouco importa se JJ é um fascista idiota saudoso do salazarismo “como um taxista da Baixa lisboeta” em outra pérola de Alencastro.

O que interessa é que vidas negras importam.

Sair das frases “Não ao racismo”, “Respeito”, foi o passo necessário para o basta mesmo que tardio.

Que a dona Fifa, a Uefa, a Conmebol, a CBF e todas as entidades esportivas de homens brancos e héteros entendam a nova regra estabelecida por quem faz do futebol o jogo mais apaixonante do planeta: “Acabou, vocês não mandam mais”.

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